quarta-feira, novembro 23, 2011

Madrigal do beco

Sirene
Aguda, aguda!
As agulhas geladas na espinha
E o chumbo derretido na barriga

O grito:
Acode, acode!
Fração concentrada do medo
E o tiro certeiro no peito

Era pobre e era preto:
Silêncio

terça-feira, novembro 22, 2011

De Canudos para sala de aula

Te pego lá fora é Os Sertões das escolas estaduais de São Paulo

O conjunto de contos do primeiro livro de Rodrigo Ciríaco, Te pego lá fora – o escritor acaba de lançar 100 Mágoas, outra coletânea de contos – é um retrato sem retoques, mas muito bem-acabado, da rotina de uma escola – praticamente de qualquer escola – pública estadual em São Paulo. Os pontos de vista, que se alternam entre alunos, professores, funcionários de apoio e até de alguns narradores insólitos, vão desenhando o que é o ambiente escolar, ou o que os governantes fizeram pela educação brasileira.
No bom e no mau sentido, o que Ciríaco apresenta é uma tremenda guerra, na qual todos os envolvidos sempre estão a perder alguma coisa, ainda que de vez em quando alunos e professores vençam algumas batalhas.
Chama a atenção de cara o fato de que nesta coletânea, ninguém é descrito como um “coitadinho”, ninguém veste a carapuça de vítima. Ainda que muitos alunos e professores vivam em um ambiente sufocante e precisem conviver com a falta de material, de salário, de incentivo e principalmente de respeito por parte de quem é responsável pela situação das escolas – e o recado, no caso, é direto para o governo do estado de São Paulo, que praticamente não muda de mãos há quase trinta anos – há momentos de alegria, de criatividade e de resistência, quase sempre.
Ciríaco é das pessoas mais indicadas para escrever sobre o tema. Professor de História da rede pública já há algum tempo, ele conhece por dentro cada vão, cada pedaço de entulho da rotina nas escolas. Por outro lado, o escritor também é dos que miram nas possibilidades e está empenhado em construir algo que não seja apenas a própria aposentadoria, como infelizmente é o caso de muitos professores que, decepcionados com a própria escolha profissional, se confortam com o horizonte do final.
Contudo, Te pego lá fora não está empenhado em construir heróis. Há os professores mesquinhos e medíocres, os alunos envolvidos com o crime ou com com expectativas de mudarem de vida por outras vias, que não a do estudo. Ciríaco mostra, entretanto, que as rotas equivocadas dos alunos são consequência do abandono em que se encontram: o sonho de ser modelo – mesmo que não haja o que comer em casa – a droga, o crime, a bebida, o subemprego ou mesmo a rua como moradia e modo de subsistência, são as opções à escola, com sua falta de infraestrutura, professores racistas, funcionárias grosseiras, colegas opressores.
Para quem conhece o cotidiano das escolas estaduais paulistas, o livro não apresenta novidades de cenário e muitos personagens são logo identificados com um aluno, um professor, um colega, quando não com a gente mesmo! Mas o talento do escritor não deixa que os contos sejam apenas um desfile de clichês ou um rosário de lamentações, ainda que de vez em quando eles apareçam.
Te pego lá fora é um dos mais nobres representantes da literatura marginal periférica. Como tal, reproduz a fala da periferia e se dirige à periferia, sem buscar a bênção dos centros, seja da academia, seja do mercado, seja das páginas culturais da grande mídia. Mas, é preciso dizer, Rodrigo Ciríaco em alguns momentos transcende as características da literatura marginal periférica. Como qualquer escritor talentoso, ele vai além do movimento que integra.
As escolas públicas são nossa Canudos. No futuro, quando quiserem saber como eram as escolas públicas paulistas, como elas conseguiram resistir por tanto tempo aos ataques de indiferença e hipocrisia dos governantes, de onde, contra todas as adversidades, surgiram alguns grandes artistas, lerão Te pego lá fora.

segunda-feira, novembro 21, 2011

Barroco Universitário

Pairam podres pelo Pinheiros
Pútridos planos peristálticos
Do feitor

Serenos sob o pôr do sol
Surfam sorvos soltos de fumo
Nas galés

E xinga-se e chumba-se o xucro
As chatas e chochas chantagens
Praça em guerra

Vãos vilões vendem a vergonha
Os ventres varam-se de vermes
viaturas

Rasga-se a ética
Cola ela com cuspe
Eis a USP

quarta-feira, novembro 09, 2011

Quando a USP me envergonha

O sentimento que dispara em mim a cada nova informação que tenho sobre os desdobramentos da ocupação da reitoria na USP é sempre o mesmo: vergonha.
A vergonha de precisarmos lidar com um reitor como o que está aí. A vergonha de saber que os estudantes que foram detidos ontem na reintegração de posse da reitoria foram indiciados, entre outros motivos, por crime ambiental, enquanto a reitoria teve autorização para desmatar uma parte significativa da Cidade Universitária. Independente da questão legal, esse paradoxo indica uma hipocrisia legalizada.
Vergonha por saber que as assembleias de estudantes são conduzidas de modo aparelhado, sem que os estudantes não alinhados ideologicamente com a mesa possam realmente se manifestar. Já presenciei, em outros carnavais, pessoas sendo claramente hostilizadas por discordarem do que a mesa queria impor. Argumentos como “sai daqui, você é rica”, foram alternados com alguns palavrões. Também já soube de votações que foram sucessivamente refeitas até que a vontade da mesa prevalecesse.
Também dá vergonha saber que a maioria dos estudantes não participa das assembleias, não por medo de repressão, mas simplesmente porque não querem se envolver com nada além de sua formação pessoal, para depois sair correndo da universidade, conseguir um emprego bom e pronto. Para eles, a palavra universidade não significa nada além de “algo ao redor do meu umbigo”.
Vergonha por deduzir – e a dedução pode ser um enorme equívoco – diante de algumas pichações deixadas ao redor da reitoria, que havia aluno achando que aquela invasão da reitoria era algo comparável ao que Fidel Castro e seus combatentes fizeram em Havana. Eles pensavam que estavam não ocupando, mas “tomando” a reitoria, de acordo com as frases que diziam que a reitoria estava voltando para as mãos de seus verdadeiros donos. É o tipo da ingenuidade que cai nas graças dos líderes mais maliciosos, ávidos por encontrar a massa de manobra ideal.
Vergonha por acompanhar pela mídia que as decisões tomadas pelos estudantes serviram de estopim para que toda a universidade fosse ridicularizada e odiada pela opinião pública. A falta de criatividade e de sensibilidade, a perspectiva pela qual agiram, deixou a sensação de que esses alunos engajados não agiram de modo muito distinto dos indiferentes, vendo a Cidade Universitária como seu universo particular.
Vergonha por saber que é necessário que haja mais segurança para toda a comunidade da Cidade Universitária, para alunos, funcionários, professores, para os moradores da região, para os que frequentam seus museus, andam de bicicleta, correm, caminham, praticam remo, para os pacientes do Hospital Universitário. É preciso segurança para que não haja mais assaltos, estupros e assassinatos. Enquanto isso, a polícia presente na Cidade Universitária prefere caçar ponta de baseado em mochila de estudante. Outra atividade da polícia no campus tem sido inibir a organização estudantil e sindical. Em vez de proteger – os locais ermos da universidade continuam sem policiamento – impõem insegurança e medo, e não apenas para os usuários de drogas ilícitas.
Vergonha porque encontraram coquetel molotov na reitoria.
Vergonha porque muita gente quis reduzir a discussão acusando os estudantes de usarem roupas de grife.
Vergonha porque ninguém questionou o fato de o atual reitor não per sido eleito, mas nomeado pelo então governador José Serra, de acordo com uma lei forjada nos tempo da ditadura. O reitor não foi a escolha da maioria.
Vergonha porque muita gente fora da universidade pensa que lá é “lugar de estudar”, entendendo com estudar passar nas provas, pegar o diploma e não “criar” caso, ou seja, questionar, sendo que questionar é obrigação dos estudantes, e que o único lugar onde os erros podem ser produtivos é nos ambientes de educação.
Vergonha e falta de rumo. É isso.

terça-feira, novembro 08, 2011

De Lula ao fascismo, passando pelo SUS

De Lula ao fascismo, ássando pelo SUS
O tucanocrata José Aníbal sempre desejou alçar voos altos na política, mas sempre acabou preterido devido à sua graciosa arrogância. Mesmo assim, é um homem de peso dentro do PSDB.
Aníbal disse certa vez que a situação da saúde pública não era relevante nas eleições porque mais da metade da população de São Paulo tinha plano de saúde privado. Eis a importância que muitos políticos dão à saúde, e também à educação. Aníbal representa um certo grupo de político, e de eleitor, que est´[a mais preocupado com os preços dos pedágios – nossa ida para a serra e para a praia precisa ser feita pelas estradas – do que com a falta de insulina – fundamental para diabéticos – ou outros medicamentos para controle da pressão. Uma parcela da população pode comprar estes remédios nas farmácias de grife.
Estes políticos e seus eleitores nos fazem enxergar o óbvio. No Brasil, para muita gente, não existe saúde ou educação pública: existe saúde e educação de pobre, que é oferecida como esmola para os que não podem pagar; sendo de graça, também não podem reclamar.
Aí vem essa baixaria, liderada por gente que nunca se preocupou de verdade com saúde pública, com educação pública, com nada público – com o caos dos aeroportos, certamente, além dos pedágios – levantar uma campanha pedindo que Lula tratasse de seu câncer no SUS. Nunca houve tal exigência para Mario Covas, que morreu quando era governador de São Paulo, também vítima de câncer. José Serra, que foi alçado por marqueteiros ao posto de melhor ministro da saúde do sistema solar, nunca ousou a fazer qualquer tipo de tratamento em um posto de saúde sem que houvesse alguém filmando. Geraldo Alckmin não viu nenhum levante para que sua família, incluindo sua elegante esposa e sua filha ex-funcionária da sonegadora Daslu a usarem apenas roupas fabricadas em São Paulo, no Brasil, pelo menos. Ninguém também nunca desejou saber o percurso dessas roupas, se houve trabalho escravo envolvido, se os impostos foram devidamente pagos etc. Paulo Renato, Fernando Haddad, Alckmin, FHC, Covas – que antes de morrer foi trocar sopapos com professor em greve – Serra, Kassab, nunca tiveram de explicar a ninguém por que seus filhos, netos, sobrinhos não estudavam em escolas públicas.
A campanha pedindo que Lula se tratasse no SUS carrega a triste verdade de que os que dependem do sistema de saúde público estão condenado se não à morte, a um grau elevado de sofrimento extra. Com esses, os “ativistas pró-câncer” em Lula, nunca se preocuparam. Para o salário de um professor, menor do que o valor de um par de sapatos que algumas dessas almas caridosas usam, poucos dão bola.
Parece que vivemos uma era demagogia, doses imoderadas de ódio ao diferente, sempre visto como alguém inferior e preconceitos variados, tudo isso vomitado nas redes sociais. É preciso achar o nome exato para isso. eu tenho uma sugestão.

sexta-feira, novembro 04, 2011

O Atravessador

Gullar sabe
Ou deveria saber, ou já soube um dia:
Todo poema nasce do espanto
Mas nem todo verso pula do acaso

Há palavras gestadas
Encadeadas não apenas
Pelo grito caótico-criador
Mas pela vontade medida
E pelo vento de Algures

E aquilo que se entrega
Mesmo que a transcendência
Seja coada pelo cético
Ainda preserva
O frescor divino.

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