quinta-feira, maio 24, 2012

Recado para o Paulo Henrique Ganso


Ano passado, eu pensava semanalmente em escrever uma crônica sobre as noites de futebol na semana. Ela se chamaria O Jejum na Quarta-feira Santa e teria como personagem principal o Paulo Henrique Ganso. Como eu estava com um medo danado de ser eliminado da Libertadores, sempre ia adiando o texto, que versaria sobre o talento indiscutível do meia que é herdeiro direto de Giovanni e Pita – o primeiro pela indicação, o segundo pelas semelhanças de estilo e pela mística da sagrada camisa 10 do Santos.
Os jogos sucederam-se muitos sem a presença de Ganso, contundido. Mas, eu sei bem, quando chegava, o jogador aparecia, era quase sempre para brilhar. Chegamos a final, vencemos, o time entrou para a história e a crônica não saiu. Logo após o título minha casa foi assaltada, fraturei o pé e o texto perdeu a razão de ser.
Este ano estamos novamente na Libertadores. As noites de futebol, quartas ou quintas, ainda são, para santistas, para admiradores do futebol elegante, para torcedores de outros times que passaram a ter o Santos como o time a ser secado e catiçado, de jejum. Para eles e para suas esposas, namoradas, noivas, amantes, ficantes. Quando o glorioso entra em campo, tudo, até o amor, pode esperar.
Será assim hoje. Temos Neymar, o craque que tem monopolizado as atenções. Temos muitos jogadores confiáveis, alguns que nos pregam peças, mas temos Paulo Henrique Ganso, que amanhã passará por nova cirurgia. Hoje o jogo precisa ser dele.
Quero crer que o fato de Ganso entrar em campo um dia antes de passar por cirurgia não será uma irresponsabilidade. Quero crer que os adversários não serão desleais, como não foram lá – mesmo com as embananadas do juiz – assim como o Santos foi leal na Argentina. E sei que o nosso camisa 10 tem todas as condições para brilhar hoje e marcar mais uma estrelinha em seu caderninho de feitos históricos. Hoje não será apenas o jogo da habilidade, pois a marcação será tão ou mais forte do que foi no jogo de ida hoje será o jogo do craque, do cerebral, do craque que dará passes precisos e colocará a bola no lugar certo, seja na cabeça do atacante, seja no ângulo do adversário.
Enquanto estiver em campo, Ganso, saiba que alguns milhões de pessoas, religiosamente, estarão em pleno jejum, ao lado ou separados de suas esposas – na verdade hoje é o dia da bola nas costas também, portanto, mantenha sua amada ao alcance dos olhos! – todos nós estaremos a espera de um artista a esculpir sua obra diante dos nossos olhos. Hoje é o seu dia, Paulo Henrique Ganso. Contamos todos com você.

terça-feira, maio 22, 2012

Intimidade


O cravo espremido
Bocejar, um espirro
E outros ruídos, bem menos finos
Lábios arredios
Para o fio dental explícito
Ouvir contra a latrina
Os murros molhados de urina
Enquanto for havendo amor
Me diga: quem é que liga?

quarta-feira, maio 16, 2012

De Jesus a Hitler, passando por Stálin (ou Lênin, ou Trotsky, ou Marx...)


Recentemente, vi no facebook um cartaz que comparava – ou melhor, jogava no mesmo saco de farinha – nazistas e comunistas. O ponto de partida para essa relação eram os símbolos de cada movimento ideológico – a suástica de um lado, a foice o martelo de outro – e o de chegada eram os milhões de mortes atribuídas a cada uma dessas ideologias.
O responsável pelo cartaz era tão pueril quanto mal informado, e certamente mal-intencionado. A quantidade de mortes atribuídas aos nazistas era bem menor do que eles divulgavam – o cartaz levava em conta “apenas” as mortes de judeus, o que já é algo gigantesco, horrendo, trágico. Mas os nazistas mataram, direta ou indiretamente, muito mais gente; na verdade, todas as mortes da Segunda Guerra Mundial podem ser colocada na conta de Hitler e de seus liderados.
A ideia do autor do cartaz era acusar os comunistas e de pedir que eles fossem tratados do mesmo modo que os nazistas: como criminosos, inimigos da humanidade, irracionais, seres monstruosos e enganadores. Não é segredo para ninguém que entre os judeus há sim muita gente tão nazista quanto os que lutavam pela implantação do Terceiro Reich. Mas comunismo é a mesma coisa que nazismo?
Há um terceiro símbolo que pode entrar nesta discussão: a cruz. Ela também pode ser associada a genocídios, manipulação, opressão etc. Em um certo sentido, a cruz, de um lado, e a foice e o martelo, de outro, sofreram adulterações nas mensagens que representam. Cruz, foice e martelo são símbolos com a mesma carga destrutiva que a suástica? Há quem acredite piamente que sim, há quem isole um dos termos e ataque os outros, de acordo com a própria conveniência.
Começando pela suástica: ela não é uma invenção dos nazistas. Uma busca preguiçosa na Wikipédia http://pt.wikipedia.org/wiki/Su%C3%A1stica já é suficiente para sabermos que ela é algo mais antigo e mais amplo. Contudo, não sejamos hipócritas ou falsamente intelectuais, é do conhecimento de todos que após a Segunda Guerra a suástica, especialmente o modelo defraudado pelos nazistas, está associado a grupos racistas e violentos, que desejam, por meio da brutalidade, se colocar em uma posição superior, no direito mesmo de exterminar os diferentes.
Dizendo de modo ainda mais claro: a essência do nazismo está no fato de alguns grupos se considerarem etnicamente – o que também caberia dizer “divinamente” – superiores aos demais, a ponto de poderem dispor das vidas consideradas inferiores como bem entenderem, especialmente com tortura, escravidão e aniquilamento.
Á a foice e o martelo – outra busca preguiçosa é suficiente para confirmar http://pt.wikipedia.org/wiki/Foice_e_martelo  – representa a união dos trabalhadores do campo e da indústria. A ideia, em sua essência, não tem nada de negativa; na verdade, trata-se de um desejo bastante nobre. Se houve ou há um grupo de socialistas, ou comunistas, com o mesmo espírito de ódio dos nazistas, ou se usaram essa bandeira para encobrir um bilioso desejo de aniquilar o diferente, a conversa é outra.
A cruz – mais uma vez cedemos à preguiça http://pt.wikipedia.org/wiki/Cruz – é um símbolo muito representativo para os cristãos. Instrumento de morte humilhante durante o Império Romano, tornou-se o símbolo da morte e ressurreição de Cristo. O que antes estava associado direta e inseparavelmente à morte, para os cristãos, tornou-se símbolo de graça e misericórdia, de esperança. Os genocídios, as cruzadas, a Inquisição, a Contrarreforma, nada disso está no plano inicial do cristianismo. Mais uma vez um símbolo e uma ideologia, no caso pelo viés da religião, foram distorcidos para justificar a ebulição de alguns demônios particulares.
Então, se a suástica, a foice e o martelo e a cruz não simbolizam ideias que foram usadas como desculpa para que fome, sofrimento, escravidão, tortura, humilhação, e mortes, muitas mortes se espalhassem pela terra, nos parece claro que somente no caso do nazismo tudo isso era uma meta desde o princípio. Não é justo atribuir a todo comunista o título de desumano, violento, “nazista vermelho” ou coisa do tipo. Stálin fez o que fez na União Soviética não por causa de uma ideologia, mas por uma sede enorme de poder, por uma visão distorcida de si mesmo. Todas as atrocidades cometidas por cristãos nas Américas, quando o genocídio era a política diplomática dos primeiros invasores, e no resto do mundo não fazem parte dos princípios pregados por Jesus – e todo mundo sabe disso; o problema é que alguns preferem espertamente escamotear esse fato.
Entre comunistas e cristãos há um enorme contingente de pessoas ingênuas, pouco informadas e facilmente manipuláveis, que acabam trabalhando por propósitos escusos. Entre os nazistas, também. Entre cristãos e comunistas, há muitos canalhas que manipulam a essência desses movimentos para enriquecerem ilicitamente e para colocarem em prática o que há de mais podre dentro deles. No nazismo, aí está a diferença, os princípios não precisam ser manipulados para que o ódio grasse. Na verdade, o ódio é a essência do nazismo, e é justamente ele quem precisa ser camuflado em forma de “justiça” e de “mérito”.
Sou cristão e me considero socialista – naquele sentido de que todos somos iguais e devemos ter os mesmos direitos e oportunidades. Não faço coro de pessoas como o apostolão Santiago, Silas Malafaia, a família Renascer, e nem de cidadãos como o Ricardo Gondim – este não é um picareta, mas creio em um cristianismo diferente do dele. Não fui feito da mesma mandioca de Torquemada, por exemplo. Não aprovo a falta de democracia em Cuba ou na China, onde dos antigos e ditatoriais regimes comunistas, parece, só sobrou a perseguição implacável. Creio que, se a religião, como as novelas, os realities shows e o futebol pode ser mesmo o ópio do povo – vide alguns opiários citados acima – no meu caso a religião, aquela pregada por Jesus, me abriu as portas para um novo jeito de viver e de perceber. Por isso, não me envergonho da cruz, e não deixo de ver a beleza na foice e no martelo – ainda que os símbolos estejam meio anacrônicos e que muitos líderes os tenham deturpado. E é por isso tudo que senti aguda necessidade de manifestar meu repúdio à comparação esdrúxula que fizeram entre comunismo, uma ideologia sujeita no tempo a desgastes e pilantragens, e nazismo, um dos maiores tumores que a sociedade já foi capaz de produzir.

segunda-feira, maio 14, 2012

Os profetas: de Emicida a Isaías


Tenho uma trava quando escrevo. Sempre penso em parentes e parceiros de fé que abominam palavrões e assuntos mais picantes, violentos etc. Bobagem minha. Há coisas mais relevantes acontecendo no mundo, há urgências enfurecidas, há desesperos legítimos que não podem ser sufocados por regras de etiqueta ou pelo uso de uma ou outra palavra mais dura ou chula.
Emicida foi preso em Belo Horizonte ontem à noite, justamente no dia 13 de maio. A data e o motivo da prisão são tão violentamente simbólicos que não podem passar desapercebidos. O cantor e compositor foi detido por cantar uma de suas músicas, Dedo na ferida. Parece que a ferida ainda sangra e está bastante sensível.
Emicida volta a sua ira para as leis que servem aos ricos em detrimento dos pobres indefesos. “Pobres indefesos”, eu sei, é um clichê de pouca reverberação atualmente, mas quem não tem onde morar, é esquecido pelo governo e constrói sua casa em um terreno sem utilidade, de propriedade de um famoso e milionário especulador, desses que despreza a lei, pode ser muitas outras coisas, mas não deixa de ser pobre e indefeso. Sim, falamos da selvageria ocorrida no Pinheirinho. Emicida também fala em Dedo na ferida do ocorrido na cracolândia e em muitos outros lugares onde a violência é colocada na frente da humanidade, aparentemente para que a lei seja cumprida.
Acontece que as leis deveriam estar a favor da justiça, o que não acontece com a regularidade esperada. As leis deveriam estar atreladas ao bom-senso e não poderiam, em hipótese alguma, serem usadas como pretexto para proteger os afortunados. E a polícia não deveria ser confundida com agentes particulares de criminosos de colarinho branco.
É daí que vem a ira de Emicida. É daí que brotam as palavras rosnadas em Dedo na ferida. Nela, o raper nos lembra que um dos bairros mais nobres da Grande São Paulo, Alphaville, surgiu a partir de uma invasão. Invasão para que mansões fossem construídas. Fato que me lembra que em um bairro que eu conheço, muitas ruas não eram asfaltadas – ruas com mansões, vale ressaltar, transversais às avenidas, estas sim, pavimentadas – apenas para que seus moradores abastados – bairro erguido em área de mananciais, de forma bastante irregular – não pagassem IPTU elevado. Gente nojenta, essa.
A alegação da polícia para deter Emicida foi a de que ele teria incitado o público de um show à violência, levantando o dedo do meio, aquele mesmo que pode levar sua mãe a estapeá-lo caso você o mostre a alguém, para a polícia. Isso foi considerado desacato. Eu não estava no show, não vi imagens e não posso afirmar que o cantor não tivesse se excedido. Contudo, é fato escancarado que a polícia se excedeu na desocupação do Pinheirinho, que a polícia nunca foi enviada para desocupar terrenos ocupados por mansões. Até aí, apenas o silêncio indiferente de boa parte da população para Pinheirinho, Cracolância, assim como para a chacina de Eldorado dos Carajás, e para as carnificinas promovidas por policiais pelas favelas e campos Brasil adentro.
Comecei o texto falando do meu receio em usar palavrões em meus textos. Isso se deve em parte pela minha vontade de não usar este recurso tão exageradamente desperdiçado por tantos escritores da atualidade, mas também ao receio de me ver dando muita explicação aos meus parceiros de fé, os protestantes evangélicos. No entanto, boa parte desses meus parceiros andam muito mais preocupados em engrossar correntes homofóbicas, muitas vezes sendo mera massa de manobra nas mãos de pastores raivosos, como Silas Malafaia, sem se dar conta de que o confronto com os gays tem sido travado de modo nada cristão, com mal disfarçadas incitações à violência e com uma intromissão na vida privada das pessoas que não encontra eco nas pregações de Jesus Cristo.
Esses meus irmãos, infelizmente, não se dão conta de que é necessário olhar e defender os desabrigados escorraçados de Pinheirinho, os viciados sem pente nem dente da Cracolância (felizmente, neste caso posso afirmar que a Primeira Igreja Batista de São Paulo não ignorou as vítimas das drogas que perambulam pelo centro da cidade), e acham que o diabo mora exclusivamente no meio dos homossexuais. O diabo, meus irmãos, também está no meio da igreja, habita em nosso descaso, nas inversões de prioridades, nos púlpitos parciais, entre os políticos corruptos, muitos dos quais nossos “irmãos”, e em todo tipo de injustiça.
Pensando nisso, a minha vontade é de gritar bem alto os mesmos palavrões que o Emicida vocifera em Dedo na ferida. Acho, exagerando nas tintas, que os palavrões do Emicida são o correspondente atual da nudez do profeta Isaías lá nos tempos veterotestamentários.

sexta-feira, maio 11, 2012

O futebol é dinâmico (8 vezes)


O futebol é dinâmico (8 vezes)
O futebol é dinâmico e um texto sobre uma partida antológica pode ficar obsoleto já na rodada seguinte.
O futebol é injusto e, dizem, é o único esporte em que um time pode ser superior ao adversário ao longo de uma partida e sair derrotado. A vida também é injusta, mas, muitas vezes, menos apaixonante que o futebol.
Os intelectuais (ouvi de Pepetela) afirmam que o futebol é o acontecimento social total (ou algo assim), e que a partir dele podemos avaliar uma sociedade com precisão.
O futebol é justo e a bola pune, já dizia um técnico com fama de mal-humorado que coleciona títulos, quebra escritas e dirige o maior time da Terra. É a justiça alcançada pelo mérito, mas também é o reino do imponderável.
O futebol é podre e as inúmeras negociatas, orgias e traições envergonham a todos que, sabendo de seu poder alienante, ainda se dão ao trabalho de escrever sobre ele, e não sobre a fome, a peste, a cachoeira ou a mídia vendida.
O futebol encanta ao ponto de parar guerras, de gerar paixões e arrebatamentos, de nos deixar a todos em estado de graça ao ver uma exibição de gala.
O futebol são oito golaços no fundo da rede do Bolívar, com direito a letra e a troca de passes entre gênios. É 3x0 aos 30, 5x0 ao final do primeiro tempo. É classe e garra. É nobre. É glorioso. O futebol é o peixe.

terça-feira, maio 08, 2012

Adjetivos de Graciliano


Derrama-se em transbordos
Diante da coisa
O caos

Quem dá forma ao acaso
Entalhando com precisão?
O escritor que faz da lira a faca
E troca a lágrima pelo ferrão

Só o substantivo não basta
Mas belo, sublime, terrível
Só dizem de quem diz
São óculos dos alheios
E adornos para ingênuos

É preciso bordar
É preciso marcar
É preciso sangrar
Em cada palavra
Apenas arte
Para que jorre
A verdade

quarta-feira, maio 02, 2012

Teatro presta?

Teatro é uma das três artes mais defendidas e contestadas ao mesmo tempo que eu conheço. As outras duas são a literatura – fundamental ou ultrapassada? – e o Neymar, que já virou uma arte autônoma (mas não é bem contestado: ele suscita a inveja entre os que não torcem para o glorioso). Recentemente, li no blog da Raquel Cozer (segue link completo aqui) que o teatro recebeu um singelo pedido de suicídio por parte de um cara importante lá da Colômbia. Semanas depois, revisei um livro sobre ensino de teatro nas séries iniciais do Fundamental I. Senti comichões de escrever sobre o assunto. Começo confessando: não vi muitas peças ao longo da minha vida. Os teatros eram longe e caros. Nenhuma política de formação de público teatral me alcançou. Alguém dirá que há peças gratuitas e que os CEUS espalhados pela periferia oferecem, vez ou outra, espetáculos teatrais. Ano passado, assisti a uma exibição teatral gratuita em um CEU aqui perto de casa. A montagem foi feita graças a uma edital de fomento ao teatro popular. Antes tivesse ido a uma missa do padre Marcelo, eu, protestante que não simpatiza com movimentos carismáticos. Não direi que o dinheiro foi jogado fora; financiar peça ruim sempre é melhor que deixar a grana escorrer pelas cachoeiras da corrupção. Mas se o meu referencial de teatro fosse apenas aquele – como, aliás, era o caso de muitos da plateia – o teatro teria morrido para mim exatamente ali. Na verdade, o teatro tem vantagens que outras artes não possuem. Para começar, é algo construído sempre coletivamente. A literatura, mesmo com seus saraus, sempre exigirá, em algum momento, o ato solitário da leitura – na verdade, ato falsamente solitário, mas outro dia falo sobre isso –; a música pode ser curtida entre nós e os fones de ouvido, apenas. O teatro só é teatro quando os artistas estão cara a cara com a plateia. O palco e a cochia são espaços em que diferentes talentos podem se combinar. O texto, o cenário, o figurino, a iluminação e a interpretação são a soma de esforços, de artes distintas. Outra vez o coletivo se fazendo necessário. Uma encenação, para ser boa, não precisa ser cara. Podemos dispensar até o cenário e o figurino, na verdade. Uma banda precisa de amplificadores, de instrumentos que não são necessariamente baratos; o cinema precisa de equipamentos, ainda que, verdade seja dita, vão surgindo ferramentas cada vez mais baratas, mas sempre necessárias. Também é verdade que a arte da representação é a arte do fazer; a música pode, muitas vezes, ser apenas a arte do sentir, e a literatura a arte do refletir. Sentir e refletir são essenciais para o ser humano; sentir e refletir fazem parte da experiência com o teatro. Música e literatura também podem nos lançar para a tomada de atitudes; contudo, o teatro sempre será algo prático, os atores sempre estão executando alguma coisa diante de ossos olhos – e o exemplo é o maior do incentivos para qualquer coisa prática. Mas o teatro, quando não é autêntico, é a mais desprezível das artes. Podemos pensar na enxurrada de musicais que atualmente nos sufocam. Não há nada de errado em musicais, tirando o fato de que os atuais são caros caça-níqueis com apenas duas funções: a primeira, legítima, é a de entreter; a segunda, a de fazer uma determinada camada da sociedade lambuzar-se com um aguado verniz cultural. O teatro também não é autêntico quando vira um fim em si mesmo, ou, melhor dizendo, quando a sua única função é não deixar de existir, é manter o emprego, ou o subemprego, de atores, iluminadores etc. É quando vemos as caças aos editais para que peças vazias sejam montadas. É quando o público deixa de ser importante. É quando o dinheiro público que patrocina montagens esdrúxulas deixa de ser usado para formação de público. É quando companhias de quinta categoria fazem montagens acéfalas e sem arte de “adaptações” de livros constantes em listas de vestibular – há exceções; vi uma montagem sobre poemas de Drummond que era algo de especial; em compensação, outra sobre Memórias de um Sargento de Milícias não passou de um engodo em uma sala empoeirada e prestou dois desserviços: um à literatura e outro ao próprio teatro. O teatro não deve morrer, embora alguns de seus profissionais tentem desligar seus aparelhos. E não morrerá na medida em que haja pessoas e políticas interessadas na formação de público e na construção de uma arte útil e necessária, em vez de buscarem exclusivamente o seu quinhão. É claro que o dinheiro precisa circular dos dois lados das cortinas, mas as pessoas também precisam ser atraídas, precisam conhecer o que é, de fato, o teatro – certamente algo que vai além das comédias fáceis, dos stand ups xucros e dos musicais luxuentos. Teatro nas escolas, nas praças e, por que não?, nos teatros. Pessoas nos teatros. Dramaturgia nos teatros. Arte nos teatros. Teatro como veículo de formação artística e cidadã. Aí, sim, algo valerá a pena, apesar de tantas almas pequenas.aqui

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