quinta-feira, junho 28, 2012

Entre a vida e a Libertadores 2012



No segundo jogo entre Santos e Vellez, meu pai e meu irmão vieram assistir à partida aqui em casa. Sou casado há quase dois anos e foi a primeira vez que assistimos a um jogo aqui em casa. Meu irmão trabalha à noite, meu pai não é muito de sair de casa. Com eles também veio a família de um amigo que conheço há 30 anos, desde os nem tão saudosos assim tempos de pré-escola, mas esse sempre está por aqui, com ou sem jogos.
O jogo foi truncado, ruim, e não deixou muitas esperanças de que a gente pudesse vencer pela segunda vez consecutiva. Mas torcemos juntos, nos angustiamos juntos, nos divertimos juntos, e vencemos juntos, ficamos aliviados juntos. Valeu mais que algumas vitórias mais fáceis.
O jogo contra o Bolívar, na Vila, eu assisti em casa, sozinho. O Santos precisava vencer. Foram oito gols, sendo que pelo menos seis foram golaços. Quando minha esposa chegou em casa e eu falei o resultado, ela achou que eu estava brincando e que o Santos havia perdido. Tolinha.
Quando Neymar, Ganso, Arouca, Kardec e companhia já davam olé naqueles bolivianos cavalos, recebi um telefonema da minha sobrinha. Não, não seria o melhor momento para ligar, o pai dela também é santista e gritava do outro lado da linha a cada desperdício do time da Vila. Ela queria me avisar que fora aprovada no vestibular. O jogo ficou em segundo plano.
No segundo jogo contra o Inter, minha sogra internada, o coma. Recebemos a visita, na hora do jogo, de alguns amigos que queriam saber como estávamos, eles mesmos haviam perdido um ente muito querido poucos meses antes. O jogo terminou empatado, o que para o Peixe não deixou de ser lucro. Neymar perdeu alguns golaços, mas, quando nossos amigos foram embora, a tristeza pela proximidade da tragédia era bem menor, e não foi pelo jogo.
No segundo jogo contra o time peruano de escrita chata, recebi amigos em casa, mas uma chuva daquelas derrubou o sinal e não vimos quase nada do jogo, que foi mais ou menos por causa da chuva. Enquanto o jogo não reaparecia na tela, me deliciei com o filho desse meu amigo quase irmão – logo, os filhos dele são quase meus sobrinhos – de três anos incompletos, lendo as histórias da Branca de Neve e da Cinderela lá do jeito dele, ou seja, pelo que ele conseguia concluir vendo as figuras. “ela tá sem sapato!” e “a princesa tá morrida!” foram as frases que ficaram na memória dessa noite.
No primeiro jogo contra o Inter, também estava com visita em casa. Vi dois gols antológicos.
No primeiro jogo da Libertadores, contra aquele outro time boliviano que sempre faz papelão, eu pensei que a minha operadora não tinha o canal da Libertadores no pacote. Descobri por acaso, na hora do jogo, e vi o Santos perder, mas jogando muita bola. Fui dormir cheio de sonhos futebolísticos que não se realizaram.
Agora, no primeiro jogo contra o Corinthians, estávamos com a Nina em casa, um filhote de Maltês que trouxe a nossa casa uma felicidade felpuda e agitada. Ela comeu umas pipocas que caíram no chão e ficou doente até conseguir pôr para fora o que lhe afligia. Sofri mais pela Nina do que pelo jogo, e olha que perder para o Corinthians sempre dói.
No segundo jogo, sem visitas em casa, não jogamos nada e perdemos, apesar de empatarmos. No dia seguinte eu tinha entrevista para o mestrado, o que, na hora da partida, não me afligia tanto.
Na primeira final entre Corinthians e Boca, assisti ao primeiro tempo sem prestar atenção e fui dormir.
Entre uma rodada e outra do campeonato, perdi minha sogra, que era corintiana. Ela estaria empolgada.Passei uma semana tentando torcer para o Corinthians, mas não consegui. Desde o começo da Libertadores, escrevi dois livros infantis em versos, que o amigo e parceiro Daniel Argento está ilustrando e diagramando. Mudei de escola. Revisei para algumas editoras. Chorei bastante. Sorri menos. escrevi outras coisas. Voltei a nadar, mas pouco, por causa do ombro. Tive uma suspeita de dengue e uma hipoglicemia que quase me empacotou. Passei a amar um pouco mais a minha família. Repudiei Lula, Maluf, Hadad, Soninha, Serra, Demóstenes, algumas revistas semanais, jornais e emissoras de televisão. Li muitos fragmentos de livros, alguns inteiros, incluindo Cabeça a prêmio, de Marçal Aquino. E, com tudo isso, fiquei com aquele gosto de vida vivida pela metade.

quarta-feira, junho 27, 2012

A Libertadores nos deixou cativos



Se você é brasileiro e não torce para o Corinthians, qualquer resultado da final da Libertadores terá um gosto azedo. De um lado, um time argentino que luta pelo sexto título continental, teto que dificilmente um time brasileiro alcançará nas próximas décadas; de outro, o time que todos nós adoramos ver sofrer, cujos torcedores estão prontos para transformarem as próximas semanas em um pequeno inferno, com gritaria, rojões, palavrões e manifestações piegas de apreço e arrogância.
Quem não torce para o Corinthians tem algumas opções: torcer para o argentino Boca e amargar a hegemonia desse time na América Latina; torcer para o Corinthians, “porque é um tié brasileiro”, e ver toda a “nação corintiana” fatiar nossa paciência nos próximos, sei lá, quatro séculos; torcer para a Argentina invadir as Ilhas Malvinas nos próximos dias e a Libertadores ser cancelada. Esquecer tudo e ir ao cinema, ver A febre do rato, de Claudio Assis, ou As sombras da noite, de Tim Burton. Eu ainda tenho a opção de ir nadar e depois ficar na festa junina da academia (se o meu braço, que hoje está doendo demais, deixar). Também há o SArau da Cooperifa, comandado pelo @poetasergiovaz .
De qualquer forma, esse ano, a Libertadores nos privou de torcer até mesmo contra.
P.S.: juro que tentei torcer para o Corinthians, mas não consegui.

segunda-feira, junho 25, 2012

Um ano de uma chuva sem Deus



Primeiro todos os troncos de árvores ficaram amarelos. Os cachorros rastejam com as costas no chão e seus uivos eram ruivos; as borboletas ficaram do tamanho de urubus, as mulheres sangraram durante um mês sem parar, os gatos se reuniam nos telhados das igrejas e gralhavam.
Depois, codornizes despencavam mortas de alturas estranhas, vindas de procedências invisíveis até mesmo para a NASA. O Mar Vermelho virou gelatina de kiwi, mas foi só durante três dias.
Aí o céu ficou mesmo rubro, mas rajado de verde fosco. Do oriente veio um vento azul, do norte uma poeira lilás e todas as cruzes do planeta partiram-se ao meio, de onde saíram serpentes, polvos, vespas. Foi então que todos os cérebros do mundo receberam a mesma mensagem: Deus se ausentava desse mundo sem avisar se ia para outro ou se voltaria um dia.
No dia seguinte a essa constatação aterradora, só se falava em outra coisa. Os jovens envelheciam bestamente, os velhos desapareciam sem rastro, a ética prosseguiu vaga e o amor que estava entre nós permanecia anêmico. As guerras se alternavam, os crimes eram mais ou menos violentos, as pessoas se consolavam ou se revoltavam e as igrejas prosseguiram normalmente suas atividades. A humanidade não sabe mudar.

terça-feira, junho 19, 2012

Quando havia Lucilene



Quando encontrei Lucilene, não éramos alguém que se destacasse entre pessoas ou coisas. Ela não tinha os seios de Gildete, a cor gritante do moletom do Caio, os dentes de Laura, os muitos cavalos do carro do Chiquinho, as coxas de Fabrícia. Eu tinha olhos e pulmões, e um coração abobado bombeando. Tanto que nem reparei.
Aí os rolavam sobre crepúsculos e alvoradas, idênticos, desiguais, e Lucilene, que não era feia nem apitava suspiros, tinha uma coisa que saía dos olhos castanhos, uma coisa que serpenteava entre as coisas, uma coisa que, quando descobria a gente, olhava como se visse aqui dentro o que estava mais encolhido no canto da sombra mais úmida, por vergonha, por medo, por segredo. Lucilene desfolhava mistérios. Então, os dentes da minha ansiedade morderam os olhares de Lucilene enquanto ela nem ligava.
Mas ansiedade não é coisa cravável: escorrega, quica, pinica, todavia não finca. E Lucilene prosseguia observando diferente, como já sacasse, como cheirasse a mente, como apalpasse a alma. Ela também parecia ser capaz de mirar nossa beleza mais distante da luz, nossa nobreza embebida em névoas, Lucilene apanhava cada um por inteiro, cada um de verdade.
Foi quando percebi que Lucilene era esquiva, mas era inteira e quis me aproximar, encostar, ver de perto, cheirar. A curiosidade virando obsessão, não obsessão, mas um desejo, desejava essa Lucilene de poucas palavras e muitos olhares, e aí ela já me parecia bonita, não dessa beleza plástica, não nas coxas, não nas cores, não nos dentes, não na força dos cavalos que não tinha, não nos seios, mas além dos olhares fortes como tentáculos havia em Lucilene uma saborosa bunda.
Vai ver que nem era assim aquela coisa pornozuda que a gente busca entrebecos, ou que se escancara em cartazes e vídeos, mas quando a coisa nos suga, a gente busca um pedaço palpável pra se agarrar. Lucilene era olhares, Lucilene era bunda.
As palavras da moça apareciam nas conversas como aquela goteira esparsa da madrugada, que incomoda mais entregotas nos espaços vazios e silenciosos., com a expectativa de um novo pingo, pela ansiedade murmurejante de cada golpe pontudo da água em flocos espancando  o que seja. O que essa moça sabia, o que ela fazia com o que capturava de nós, o que ela despertava vinha dela ou era só um estado de busca e captura que o meu radar tentava sintonizar? Ela me dava medo e me deixava atento.
De noite, apenas a luzinha vermelha do som no quarto, no meio do escuro brilhante, eu ouvia músicas velhas que falavam de sentimentos antigos, de um jeito meio embolorado. Lucilene aparecia sem rosto em cada cenário que as canções gargarejavam pelo ar, Lucilene estampava seus olhares entre as fotos das revistas que eu folheava antes de apagar a luz, Lucilene rebolava dentro de um jeans apertado, naqueles shorts minúsculos o porto da minha insegurança.
Precisava conversar com Lucilene, era só conversar, agarrar o que havia ali além de olhares e bunda. Mas só a conversa, a primeira conversa natural, não existe. A gente joga toda a força na voz trivial, no rosto comum, e fala tremido, crispa o rosto, avermelha-se. Quem nos interessa, antes de mais nada, nos oprime. Amar de perto é um esforço, um ruído, uma cicatriz futura.
Lucilene beijou o Cirilo, em frente à cantina, pra todo mundo ver. Um mês e meio depois mudei, para não ter contato, pra não ser mais o mesmo, pra longe. Ela ficou cristalizada entre tentáculos oculares, glúteos e uma possibilidade.
Essa Lucilene do outro lado da rua tem mais quilos, rugas e manchas do que aquela de outros tempos. A bunda cresceu e o olhar é exatamente o mesmo. Nunca houve tentáculos que não fossem ali injetados por mim. Lucilene era os meus desejos vomitados. Isso quando havia desejos. Agora, só vômitos.

sexta-feira, junho 15, 2012

O que o Santos precisa saber



Um belo exemplo de arrogância e estupidez é a imagem de um leigo dando palpites técnicos para um profissional. Como professor de português, de escola pública, ouço o tempo todo pais e não pais bancando os catedráticos sobre o modo de ensinar os alunos. Os anos passados na faculdade não contam mais do que o achismo cheio de lugares comuns e equívocos sobre o que deve ser a educação ideal. A escola também pode ser a selva do empirismo sem critério.
Só existe uma classe de profissionais que sofre mais com os palpites do que professores: a dos futebolistas, técnicos e jogadores. Na pátria de chuteiras e sem bibliotecas, todos nós jogamos ao menos meia dúzia de peladas, assistimos a jogos desde o útero e prestamos muita atenção ao que é dito nas mesas redondas, por “profissionais gabaritados”; tudo isso somado deve nos colocar no mesmo nível de Telês, Saldanhas, Bielsas e Guardiolas.
Não tenho a menor pretensão de dizer o que é certo a um grupo vencedor e de alto nível de profissionais que é o time do Santos, comissão técnica inclusive. Sou um mero torcedor que passou mais tempo lendo as crônicas do Luis Fernando Verissimo do que jogando futebol. Não posso dar palpites sobre esquema tático, substituições e coisas do tipo sem virar um palpiteiro, ou um torcedor apaixonado.
Mas sou um torcedor. Vi algumas partidas antológicas do Santos, sei da nobreza que este time ostenta, da constelação de estrelas que sua galeria de craques abriga. E sei o que é um time sem raça.
O jogo contra o Corinthians pela Libertadores foi triste. Faltavam ao Santos concentração (quantas bolas fáceis não foram dominadas), marcação mais convincente no meio de campo (o time marca muito atrás e perde muitas bolas no meio, não é de hoje), um lateral-direito (Henrique não se adapta naquela parte do campo, é volante; perguntem onde eles estava no momento do golaço do Emerson?) e faltou vontade de vencer.
Havia no Santos, fora todos os vacilos, fora toda marcação competente do adversário, uma falta de gana que tirou desde o momento do gol toda esperança do torcedor do time da Vila. O time não aprendeu muita coisa com o Barcelona: ficar tocando a bola sem vontade no campo de defesa, de um lado para o outro, não é posse de bola sadia: é falta de interesse no jogo. Infelizmente, e digo isso com pesar, o alvinegro praiano agia de um modo semelhante à seleção brasileira no horrendo jogo contra a França na Copa de 2006: achava que o gol sairia a qualquer momento, afinal de contas, naquele grupo havia craque pra todo lado.
Isso era o que parecia ao torcedor, pode ser que não seja a verdade. Mas uma boa verdade é que o Velez aprendeu a marcar o Neymar e outros times já copiam a fórmula, que na verdade é bastante simples e manjada: limitar o espaço para o atacante carregar a bola. Sendo assim, não adianta o jovem craque querer partir pra cima dos marcadores a todo momento, achando que conseguirá fazer grande coisa, que é indestrutível: é preciso tocar e trabalhar a bola, envolver o time adversário, forçar o erro, driblar no momento certo, com segurança, com outros companheiros por perto para que a segunda bola seja nossa.
Falo obviedade e certamente há muita bobagem tática em minhas palavras. Mas estou certo de que a falta de atitude e de um lateral-direito de verdade não são fatos vistos apenas por profissionais do futebol. Cada pé santista precisa entrar firme nas divididas, o time precisa correr com disposição, não pode desistir, não pode ficar esperando o adversário deixar jogar. Em semifinal de Libertadores, o tempo das goleadas é passado.
Jogar no Santos é um privilégio. Disputar a vaga para a final da Libertadores contra o nosso maior adversário, que nunca venceu este campeonato, é coisa muito séria. Nesse caso, um fracasso, não porque o outro time jogou melhor, mas por causa do salto alto, da empáfia, da indiferença, do desinteresse genuíno pelo jogo, pode manchar as conquistas que este grupo já alcançou.
E, se for para perder, que seja do jeito correto. Não aprendemos a lidar bem com a derrota apenas quando reconhecemos a superioridade do adversário, mas quando damos trabalho ao oponente, quando colocamos nosso desejo, nossa vontade diante dos nossos olhos, ou, no caso, das chuteiras, e vamos com toda força que a situação nos cobra. Com lealdade, com dignidade, mas com os olhos brilhando só de imaginar mais uma vitória. Só sabe perder quem luta até o final pela vitória.
Nós, os torcedores, merecemos essa entrega, merecemos seriedade tática, merecemos vontade de vencer. A mim chamou a atenção o fato de ver muitos torcedores envergando camisas do Santos no dia seguinte ao jogo. Havia mais corintianos que santistas orgulhosos pelas ruas de São Paulo. E o time, na bola, jogador por jogador, consegue, não sem esforço, mas consegue, fazer dois ou três golzinhos no Corinthians. Todos nós, inclusive o alvinegro paulista, sabemos disso – o problema, é que eles não temem mais o Glorioso Alvinegro praiano.
Um pedido aos jogadores do meu time: levem a sério o canto que vem das arquibancadas: “Vai pra cima deles Santos!/Vai com determinação/Tu, que és o glorioso!”
Tu que és o glorioso, Santos.

segunda-feira, junho 11, 2012

A “caetanização” de Wagner Moura



Antes de mais nada, preciso dizer que este foi um dos textos mais difíceis que já escrevi. A necessidade de falar sobre algo era intensa, mas a organização das palavras era incerta, confusa. Talvez melhor fosse me calar , o assunto já está esfriando, mesmo. Não consegui.
Começo dizendo que achei o show da Legião Urbana – ou do que restou dela – com a participação de Wagner Moura, muito legal, juro. Emocionante, inesquecível. Quando a banda ainda existia de verdade, eles não costumavam fazer muitas apresentações Quando Renato Russo morreu, os outros integrantes sabiamente enfiaram viola e baqueta no saco, indo cada um viver sua vida, sem querer viver de um passado glorioso. Foram dignos.
Aí veio esse tributo com Wagner Moura. Confesso que achei a coisa esdrúxula. Mas o ator não subiu ao palco no posto de celebridade descascada: era um fã a ponto de explodir de felicidade por ter o privilégio de tocar com seus ídolos. O cara estava lá nos representando, a nós que gostaríamos de estar no palco com a Legião Urbana, mesmo sem haver motivo algum para que essa Jam acontecesse. Sem pose, sem máscara, sem estar preocupado em fazer bonito, apenas curtindo, deixando clara sua admiração e respeito, Wagner Moura também foi digno.
Sei que muita gente detesta Legião e que se Renato Russo ressuscitasse, o show também seria algo ridículo e desnecessário. Eu sou fã desde as primeiras horas e reconheço que muitas canções da banda me embalaram a vida, me fizeram suportar a adolescência espinhosa, o mundo violento e frio, mas cheio de virtudes, os amores que dilaceravam saborosamente. É que antigamente a adolescência era uma coisa difícil, esquiva, úmida, gordurosa, e não a caixa de lápis de cor saltitantes dos dias atuais, tampouco um eterno chororô sem sentido; lembrando um verso de Renato Russo, a lágrima era verdadeira.
Sei que a obra da Legião Urbana, como aliás, acontece com praticamente todos os poetas geniais, é irregular. Mas com Andrea Dória (nada mais vai me ferir/que eu já me acostumei/com a estrada errada que eu segui), Índios (uma das primeiras canções que me fez pensar, e não apenas repetir um refrão), Geração Coca-Cola (vamos cuspir de volta o lixo em cima de vocês!), ou como Sereníssima, 1965 (duas tribos) entre muitas outras, os caras entraram pra nossa história cultural, gostem ou não. O lastro dessa obra permite escorregões sentimentosas como É preciso amar (Áár) as pessoas como se não houvesse amanhã. A quantidade de pequenas genialidades, de poéticas verdades, como Perfeição, ou na brilhante – isso mesmo, brilhante! – junção do soneto camoniano com os versículos bíblicos de Monte Castelo exige: e respeite quem soube chegar aonde eles chegaram.
Ninguém, ao comentar o show-tributo, deve falar em desafinações, pois aquilo era rock: nesse campo, quando tudo dá certo, a performance vale bem menos do que a atmosfera alcançada, as verdades cantadas, embora não seja pecado acertar o tom. Então, por que chamaram o Wagner Moura?
Sim, o cara é um fã honesto, e chamá-lo evitou ciumeiras, ou um desfile de gente afetadinha falando que era fã do Renato, que era amigo do Renato etc. Será que foi apenas por isso?
Um dos motivos, talvez o mais relevante, creio que foi pegar emprestada a credibilidade do ator. Tudo que é feito por Wagner Moura vira notícia, ganha etiqueta de grife. A Legião Urbana já é uma grife, mas um show a essa altura  do campeonato resvala na bizarrice, por ais direito que Marcelo Bonfá e Dado Villa-Lobos tenham o direito de falar em nome da banda, eles são a banda, ou boa parte dela. O ator mais badalado do momento foi um ótimo chamariz – eles precisavam de chamariz? – foi um fato novo, colocou um fã legítimo no palco, dividiu aquele privilégio entre todos nós, mas a coisa toda continuou muito esquisita, para alguns - não para mim, ressalto - foi quase uma autoprofanação por parte da Legião.
A presença de Wagner Moura no show da Legião Urbana confirma duas coisas: a primeira, que o forte da cultura brasileira atualmente não está na música – ou um cantor jovem e respeitado poderia fazer a presença no palco. Talvez Cassia Eller, mas ela já partiu há dez anos. Preferiram um ator a um “cantor de ofício”, inverteram as posições, como vemos de vez em quando no futebol.
A outra certeza que o show nos deus – ao que consta, Wagner Moura sequer era amigo de Bonfá e Dado – é que o ator é o Caetano Veloso da atualidade. É o grande referencial cultural, o homem cujas opiniões e passos são sempre relevantes.
Caetano Veloso é um dos maiores compositores, um dos maiores artistas da história do Brasil. Wagner Moura caminha para ser um dos maiores, talvez o maior ator brasileiro. Se ambos usassem todo prestígio conquistado legitimamente em coisas mais relevantes, e não se vissem envolvidos em situações polêmicas...

quinta-feira, junho 07, 2012

Entre a homenagem e a falcatrua



Todo artista começa sua trajetória após ser alcançado por outro artista que o antecedeu; ninguém parte do zero.
O artista que chega causando espécie e impressionando pela originalidade, normalmente, experimentou, trabalhou muito antes de “surgir”. Isso quando não foi moldado em escritórios e estúdios para atender a uma demanda de mercado, mas nesses casos trata-se de algo entre uma enganação ou um exagero midiático. Às vezes, o artista tem um talento instintivo, mas aí trata-se de um caso raro; quem chega ao inferno, quase sempre é conduzido pela mão de algum Virgílio, algum Dante, levando consigo toda esperança.
A personalidade artística autêntica não é forjada em duas ou três pinceladas, em dois acordes, em meia dúzia de estrofes. Ela vai sendo montada a cada tentativa, a cada esbarrão, a cada improviso, a cada derrapada, a cada cálculo, a cada achado. De vez em quando, um artista chega à conclusão de que já atingiu seu ápice, ou que, tristeza, perdeu a vontade criativa, o talento. Alguns, quando chegam nesse estágio, são honestos o suficiente para colocar um ponto final em sua obra; outros se cristalizam, repetem fórmulas, não por ainda acreditarem nelas, não por uma obsessão pessoal, mas para não perder a boquinha. Ou ainda, o que pode ser bem menos louvável, buscam repetir, copiar, macaquear ondas que estão em maior evidência. Raramente o resultado fica além do constrangedor.
Os primeiros poemas, as primeiras músicas criadas pela humanidade foram meras imitações de ritmos da natureza, do ruído desagradável das ferramentas rústicas de trabalho; a originalidade mora na filosofia de misturar, embaralhar ou de se opor ao que já existe. De qualquer jeito, sempre há a presença de um outro, e isso desde o início.
Quem é imitado precisa lidar com dois sentimentos bem distintos: o primeiro, é a vaidade que qualquer tipo de admiração gera; o segundo é o desgosto de perceber que alguém tenta embarcar em seu talento, falsificar sua assinatura. A cópia também pode significar menos negócios, por haver um genérico mais em conta no mercado. Entre a vaidade de ser imitado e a irritação de deparar com uma concorrência desleal, cabe a quem é copiado se lembrar que também já imitou alguém em algum momento e ter paciência quando o “fã” não é desonesto. Afinal de contas, todos nós lidamos com a “angústia da influência”.
Como exemplo cito três escritores que são verdadeiras matrizes geradoras, todos, coincidentemente, mineiros. O primeiro é o poeta Carlos Drummond de Andrade. Sua obra foi tão marcante entre nós, que verdadeiras legiões de poetas bebem gulosamente seus versos, querem ser como ele. Creio que pouquíssimos imitadores de Drummond conseguiram chegar a algum lugar de destaque. E isso justamente porque queriam ser como ele, não problematizavam a admiração, não saíram daquela fase juvenil em que os amantes da poesia copiam poemas em cadernos escolares ou nas redes sociais: não deixaram de fazer decalques.
Outro autor-matriz é Guimarães Rosa. Depois de sua prosa inventiva, parabólica, de palavras “quase inventadas”, vários escritores quiseram fazer coisa semelhante. Muitos deles, talentosos ou não, em sua ânsia inventiva, não foram muito além da soldagem de palavras, ou da troca meio sem critério de prefixos e sufixos, não raro para esconder a fraqueza de suas narrativas.
O terceiro mineiro é Rubem Fonseca. Sua prosa urbana, seca, entre policial e cômica, muitas vezes com personagens deslocadas, pobres, “estranhas criaturas”, teve um efeito bem arrasador entre os escritores. Muita gente boa bate continência ao Zé Rubem, muita gente começou a escrever sobre travestis, traficantes, policiais e prostitutas, almejando ser como o mestre. Mas muita gente perdida pensou trilhar os passos do autor de Agosto e não coisa que prestasse. Usar palavrão, por exemplo, passou a ser o “recurso estilístico” mais desgastado entre nós.
Ser imitado, como já disse, não deixa de ser uma honra. É sinal, sim, de reconhecimento. Agora, quando surge um artista que consegue imitar sua influência à perfeição, deve soar a sirene de alerta. Djavan, por exemplo, artista bastante original (que bebeu em fontes de sambistas, da bossa nova, do jazz e de Luiz Gonzaga) de vez em quando é decalcado por alguém, mas até hoje ninguém chegou muito perto de seu talento, tanto que os adeptos do transfer ou desaparecem ou viram outra coisa, muitas vezes bem diferente. As letras originais de Djavan, que se casam com a melodia e criam significados, quando imitadas, não passam de garatujas. Roberto Carlos foi imitado por exércitos de cantores, alguns com relativo sucesso, mas que hoje em dia estão restritos a algumas casas de lazer com luzes vermelhas nas portas. Renato Russo e sua banda foi imitado, mas ninguém atualmente é sequer lembrado (“missionários de um mundo pagão”).
Ana Carolina, Cassia Eller e Zélia Duncan são bastante imitadas, mas é fácil perceber a diferença entre elas – independente de gostarmos do conjunto de suas obras – e as tolinhas que entoam com vozes graves seus cantos cafonas.
Ano passado, havia uma canção bastante presente no rádio que lembrava em tudo, arranjo, melodia, letra e principalmente timbre da voz, uma famosa cantora brasileira. Fiquei na dúvida: será que é aquela, que já há algum tempo não lança disco? Resolveu aparecer? Como sou fã dessa cantora, fiquei na expectativa.
Quando descobri que aquela canção era de uma outra cantora ainda não famosa, fui atrás de alguma coisa na internet. As outras canções que achei da moça em nada se pareciam com a cópia que ela, seus produtores, empresários e sei lá mais quem, resolveram fazer da cantora famosa.
Fiquei com a impressão de que a moça era uma picareta. Porém, também fiquei com uma indagação: se ela conseguiu imitar a original ao ponto de deixar um fã em dúvida, é porque a fórmula já estava bem manjada. Era hora de mudar, afinal, artista que é imitado à perfeição não apenas caiu no gosto popular: ficou previsível, óbvio, deixou de arriscar.
E não é que veio o disco novo da cantora imitada e as canções são exatamente iguais as que ouvimos em outros carnavais? Nesse caso, a impostora picareta que tenta passar por outra cantora não é a única farsante...

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