sexta-feira, fevereiro 22, 2013

Yoani é contra Cuba?



Mais uma manifestação contra Yoani e a favor de Cuba obstruiu um evento no qual a blogueira participava, dessa vez em São Paulo. Mais um ato antipático, antidemocrático e anti-inteligente por parte de um grupo de românticos que lamentam muito não terem vivido no período da ditadura militar brasileira, quando se opor era necessário, mas também era chique. Hoje, na falta de sabedoria para escolher a bandeira certa − há tantas causas para serem defendidas − esses jovens engajados correm para o lado onde a palavra revolução é mais dita e deturpada.
Dessa vez, o que mais me aborreceu foi ler em uma reportagem na internet que Yoani foi hostilizada por grupos "pró-Cuba". O erro do redator foi crasso: não eram manifestantes pró-Cuba, mas manifestantes pró-Fidel e Raúl Castro, pró ditadura cubana.  A mim soa que os manifestantes não estão realmente preocupados com a população cubana, sobre suas reais condições de vida, sobre um possível desejo de mudança de rumo. Aqueles que seguem e ofendem Yoani Sanchés, defendem um símbolo de resistência contra o capitalismo, defendem um mito, mas não estão preocupados com a saúde social de Cuba. Parece que eles creem mesmo que se há privações, insatisfação, tristeza entre os cubanos, eles precisam resistir em nome da revolução, para servirem de exemplo ao mundo que é possível viver em um país livre das garras dos EUA e do hálito de enxofre da iniciativa privada. Querem que os cubanos se sacrifiquem em nome do comunismo, especialmente aqueles que sonham com o capitalismo.
Ainda que eu não tenha dúvida de que é preciso sonhar e buscar alternativas ao atual sistema econômico hegemônico, ainda que eu deteste a ideia de que só o capitalismo liberta, não acredito que o comunismo cubano seja a melhor alternativa, não acredito em uma revolução que não tenha como meta a justiça social e a felicidade das pessoas − começo a ficar repetitivo como as manifestações a favor de Cuba. E não acredito em revoluções que não sejam democráticas, que não se mantenham democráticas. Sim, a democracia tem suas limitações, mas revolução sem democracia é ditadura, e não é do proletariado, não.
Galerinha raivosa, direcionem suas energias sua raiva, para coisas mais produtivas, incluindo os estudos não tendenciosos. Não endeusem nem demonizem previamente, não se neguem a compreender, a encontrar o outro lado. Problematizem. E se são de grupo "pró-Cuba", defendam Cuba, o povo cubano, não idolatrem os governantes cubanos acima de tudo − assim como é uma estupidez os lançarem ao inferno sem direito de defesa. Deixem a blogueira cubana em paz, tentem alçar blogueiros cubanos pró-Cuba à fama; ainda que sejam a favor de Cuba, admitam que controlar  a internet é algo inaceitável, que uma pessoa ser considerada rica por comer carne mais de uma vez por semana é absurdo, que as pessoas precisam ter o direito de votar, ainda que corramos o risco de elegermos palhaços e ladrões. 

quarta-feira, fevereiro 20, 2013

Contrário amor?


Se o amor é invisível
Mas na face, inescondível
Se é mistério, segrediço
Enquanto cresce a olho visto
Sé é ferida não sentida,
Oásis de tristeza no deserto da alegria
Se o amor impõe o medo seco
E enxurradas de felicidade
Se ele beija a morte quente
E abraça a vida fria:
O amor vai da ponta ao pico,
É sereno e explosivo,
Então, não se contradiz
O amor é pleno, é cheio, é pouco
A medida certa do muito
Angústia de ser feliz
A fração do Absoluto
Pois está em (quase) tudo

terça-feira, fevereiro 19, 2013

Yoani Sanchés: os aloprados são ambidestros



Enquanto a história vai se desenrolando, a gente precisa ir aprendendo a observar a realidade, a mudar de lado quando for necessário − sem ter de ser chamado de traidor − a gente precisa aprender a usar o bom-senso!
A violência das ditaduras populistas e militares espalhadas pela América Latina, com seus torturadores, com suas mordaças, fez que muitos de nós criássemos um mito sobre Cuba, que acreditávamos ser um oásis de igualdade e justiça social. De fato, e muitos me odiarão por isso, há que se respeitar Cuba por muitos motivos, em primeiro lugar porque Cuba não é Fidel e Raúl Castro, mas um país de cultura riquíssima, com música e literatura de destaque, que brilhou nos esportes olímpicos durante muito tempo, com a devida ajuda de países aliados, não é necessário negar: Cuba é um país onde mora gente.
Mas Cuba não é só isso. O caminho para essa justiça social passou pela perseguição, pela censura, pelo silêncio e, sob muitos aspectos, pela socialização da pobreza. Não sou especialista em Cuba, mas também não sou tão ingênuo assim: sei dos múltiplos interesses que existem em desqualificar o regime político em Cuba, mas também sei que há perseguição política e que as pessoas de lá não estão nadando em dinheiro: na verdade, muitas delas nadam entre tubarões para tentarem uma vida melhor em Miami.
O governo cubano, como qualquer regime autoritário, é medroso e covarde, teme e persegue seu próprio povo. Mas Fidel e Raúl Castro não são a encarnação do demônio, não são a representação dos piores governantes que o mundo já viu. Acredito que não são sequer os piores governantes em atividade no planeta. O Oriente Médio tem gente pior; a China, que de vez em quando é citada como exemplo de crescimento econômico, é agressivamente capitalista na hora de fazer negócios e estupidamente comunista na hora de desprezar a liberdade de expressão e de defecar em cima da democracia. Por que não vemos senadores tucanos fazendo discursos apaixonados quando o governo chinês faz alguma atrocidade? Meu palpite vai sobre  hipótese de que a China é um gigante econômico, parceiro do Brasil em várias empreitadas, traz dinheiro pra cá, enquanto Cuba, quando fecha alguma parceria entre nós é nas áreas sociais; e tem outra: é muito mais fácil chutar cachorro magro.
Mesmo execrando a falta de democracia, tendo repulsa pelos bolsões de pobreza que obrigam o povo cubano a viver de jeitinhos, tenho um respeito reverente e me solidarizo com o povo. Há muita gente infeliz por lá, e essa infelicidade deve ser levada em conta, não pode ficar abaixo dos ideais revolucionários: qualquer revolução séria deve ter como intuito deixar as pessoas mais felizes, e não torná-las autômatos a repetir o discurso de uma nota só. Acredito que foram esses autômatos, em sua versão brasileira, que hostilizaram Yoani Sanchés, a jornalista cubana que visita o Brasil essa semana, após alguns anos tentando conseguir um visto para deixar, provisoriamente, o país.
O tratamento dispensado a ela tem sido covarde, pautado não pela defesa de ideias, mas por gritos de slogans, como a própria Yoani apontou com precisão. A mulher merece respeito pela sua postura de resistência; mesmo que ela seja uma "agente a CIA", do que a massa de manobra que acordou de madrugada para a receber com xingamentos e palavras de ordema jornalista a acusa, a mulher passou anos morando em Cuba e criticando o governo dos irmãos Castro. É preciso coragem para isso.
Também é preciso imparcialidade, reconheço, para avaliar se as suas acusações procedem ou não. E isso, me parece, não há. Seus opositores a transformam em um porco capitalista, seus falsos admiradores a fazem sangrar para manchar a imagem do governo. Há ainda os que a seguem pelas redes sociais, os que digitam "Liberdade para Yoani!", apenas porque soa descolado. Poucos estão realmente do lado dela, não vi ninguém que se opusesse com bons argumentos, sem arreganhar os dentes.
O que é triste, mas necessário, é reconhecer que, sem deixar de lado os reais interesses da oposição, esse tucanato que põe o mercado e o lucro acima de qualquer outro valor, está fazendo um papel interessante. É preciso cobrar satisfações da embaixada cubana e do funcionário do governo que, parece, arregimentaram esses agitados gritalhões que não sonham ir morar em Cuba, lá a internet não é 3G e muito menos ilimitada. Essa história de dossiê falando cobras e lagartos de Yoani precisa ser esclarecida, pois é de uma covardia atroz. E a revista Veja? Deve, realmente, ser parabenizada por conseguir apurar essa história do dossiê, por cobrar esclarecimentos e punições.
Não gosto de parabenizar o tucanato, nem de reconhecer os méritos da Veja. São dois grupos com os quais não me identifico nem de longe. Na verdade é um grupo só, a Veja é o Pravda dos tucanos, cuja agressividade e falta de "decoro", compartilhada por cães raivosos de outras trincheiras, como Rodrigo Constantino, Arnaldo Jabor, Olavo de Carvalho, Diogo Mainardi entre outros que olham com profundo desprezo para tudo que cheire a classes populares. E isso é o que me azeda o arroz: dessa vez, boa parte do que dizem, por vezes até os xingamentos pouco criativos ("burros", "imbecis", "energúmenos", "picaretas"), faz muito sentido.
Nesse caso da Yoani, os cães raivosos, a Veja e o tucanato, estão com a razão. Sad but true.

sexta-feira, fevereiro 15, 2013

À cidade de Salvador



Ainda é triste a Bahia
Rasgada entre o riso e a treva
Dessemelhante dos comerciais de cerveja
Sufocada sob os bambuzais dos versos de exaltação
Eletrocutada em praça pública sobre os trios frios

Tua máquina mercante
Treme e tira os pés do chão
Esparrama urina em solo sagrado
Faz de butique e pálido
O carnaval da curti$$ão

Bahia sem Salvador
Cidade de todos os sais
Em tua extensa barra navegam descaso e sujeira
Na beira do porto a bandeira do descaso descasca
Descalços, tantos negociantes empenham a própria carne
Ardem nas areias, resistem
Assistem ao longe à opulência gritante pipocar

A desdentada miséria poliglota
Arreganha o analfabeto em muitas línguas
Ao turista sem fé oferecem
A grife da macumba oswaldiana
Os tambores desafinados rebumbam
E sob flashes entretêm  a chique malta

Pelos largos na cidade alta
Sua beleza difusa derrama-se:
Entre o ouro emplastrado nas igrejas,
E as pedras sob os pés do Pelourinho,
O sangue pulverizado pela chibata enobrece a praça
Enquanto minha consciência destila-se no cravinho
E a travestida  baiana, qual o artista da fome
Caça fotos a preço de migalha

Sua boa missa negra
Onde brilham os tambores para a glória de Deus
Vê rarearem os fiéis
Enquanto o milagre da multiplicação da plateia
Enche de mancha e ruído a devoção.

Os prédios da cidade baixa
Ruína virando entulho
História virando lixo
E a gente não vira bicho
Porque resiste
Não veste a fantasia
De palhaço amestrado da corte
Não samba pra gringo ver
Mas dança pra suportar
Organizar
retomar.

quinta-feira, fevereiro 07, 2013

Os bandidos da USP


O "preço da liberdade", ou melhor, a sucessão de trapalhadas ingênuas veio dar nisso: acusação de danos ao patrimônio, pichação, desobediência judicial e formação de quadrilha. Ainda que eu particularmente considere inadmissível que estudantes da maior universidade do país, especialmente os das Ciências Humanas, caiam em esparrelas como os discursos do tipo "tomando a reitoria de volta para o povo", ou que eles realmente acreditassem que estavam fazendo − o próximo passo, qual seria? Tomar as sedes da Coca-cola e da Apple no Brasil? Estatizar a Zara? − fico temeroso de ver acusações tão graves, e especialmente com o que pode acontecer com o desfecho do processo.
Caminhamos para a ridicularização/criminalização de qualquer revindicação estudantil, o  que é gravíssimo. Lembro que em 2002, após alguns anos de sucateamento do ensino superior paulista executado pelos governos do PMDB e do Covas −sim, o Covas deu várias vaciladas − havia um déficit de mais de uma centena de professores apenas na FFLCH. O que promoveu um processo de mudança que levou à contratação de vários professores foi uma greve de estudantes bem sucedida.
Acho mesmo uma afronta uma promotora chamar os estudantes de bandidos, mas, ao menos para mim, está claro que os cordeirinhos que achavam revolucionários eram tangidos por corvos, e esses corvos acham e colocam na cabeça dos cordeirinhos que flertar com a criminalidade tem lá o seu glamour. Não tem mais, estamos em um estado democrático. Se a escolha do reitor Rodas foi um ato contra a democracia promovido pelo Serra e corroborado pelo Alckmin, do que nenhum animal racional pode discordar, os meios para reverter a situação deveriam respeitar as regras, e não servir de munição para que a opinião pública se voltasse contra os estudantes da USP. Na verdade, alguns inocentes úteis desejaram o confronto, queriam ser retirados pela polícia debaixo de cassetete mesmo, aparecer na televisão como vítimas da repressão. Entre os policiais, bem sabemos, havia os que estavam mordendo os lábios, morrendo de vontade de descer a borracha naquele bando de "filhinhos de papai, que choram de barriga cheia e querem mesmo é fumar maconha sem serem incomodados".
Quem é da comunidade da USP sabe que as reivindicações iam além da questão da maconha no campus, mas o mundo assistiu a uma revolta de noias. E não é verdade que a culpa disso é da mídia, ela apenas tirou proveito do farto material cedido pelos próprios manifestantes.
Também acho triste ver boa parte da sociedade curtindo ver os estudantes em maus lençóis, por rancor, por inveja, por revanche, por saudades da ditadura, por não se identificar com eles. A USP vem se acostumando a não interagir com a comunidade como deveria. Nossos filhos, vizinhos alunos, colegas, não estudam lá, mas pagam salários e verbas que mantêm aquela joça funcionando! Rodas e seus antecessores boicotaram o projeto inicial da linha amarela do metrô que previa duas estações dentro da Cidade Universitária, com medo de "gente diferenciada" ter acesso facilitado ao campus. Rodas e seus antecessores promovem "desmatamento legalizado" mas imoral e desnecessário dentro da Cidade Universitária. Rodas limita a entrada de pessoas que não são da "comunidade USP" no campus e quando pedem ajuda da polícia é pra caçar ponta de baseado em mochila e revistar pessoas com "perfil suspeito", como negros, mestiços e estudantes que usam "roupas de maconheiro".
Tudo isso nos dá uma certeza. Após a redemocratização do país, nunca foi tão necessário um movimento estudantil forte em todos os níveis da educação oficial. Um movimento estudantil altamente politizado e baixamente partidário. Politizado para que grêmios, centros acadêmicos e DCE's não se tornem grupinhos estudantis cujas reivindicações não conseguem ir além de tempo, espaço e verba para festinhas, excursões e jogos. Baixamente partidário porque, ainda que seja impossível negar as manifestações das diferentes agremiações políticas, uma organização estudantil não pode ter sua agenda comprometida com agendas de partidos; o estudante "civil" não pode ser ignorado nem aliciado. O episódio da invasão/ocupação da reitoria foi um dos maiores, senão o maior desperdício de energia e de oportunidade da história dos movimentos estudantis. Os envolvidos tiveram de passar pelo ridículo de tomar pito do Alckmin, que teve o sarcasmo de dizer que "daria aula de democracia", com PM e cassetete, para os agora réus da USP.
Passar a mão na cabeça dos estudantes é o mais adequado? Decretar de antemão sua absolvição é justo? Está claro que não, pois não estamos lidando com crianças que picharam as paredes do jardim da infância. Mas também é temerário transformá-los em "exemplo de que esse país tem ordem". Alguém sabe como resolver essa treta?

Canção da lira morta



para Drummond
Querem, uns poetas de agora
Engenheiros de sementes secas
Mestres de obras
Pedreiros de labirintos
Dinamitadores de pontes
Gesseiros de versos, aborteiros da comunhão
Querem, esses poetas de departamentos
Ratazanas do lato sensu:
Afagos acadêmicos
Distintos
Anêmicos
Endêmicos
Querem, esses seres cultos
Entediantes, arrogantes
Alcançar a equação do verso
A estrofe semiótica
A polifonia para decretos
O edital, a bolsa, a boca

Querem  ausência
Almejam o vazio
Planejam o descompromisso
A neutralidade dos indiferentes
Um lugar na bancada
E que o poeta só finja, não sinta nem seja nada.

quarta-feira, fevereiro 06, 2013

Jorge Amado e os rascunhos sagrados


Estive recentemente, e pela primeira vez, em Salvador. Um dos lugares que mais me agradaram foi a Fundação Casa de Jorge Amado, no Pelourinho. Aliás, o Pelourinho me agradou de um modo geral pela história que representa, pelas estórias das quais foi cenário: o Pelourinho é cenário de parte do imaginário de qualquer brasileiro.

No passeio pelo Pelourinho, mesmo antes de entrar nele, no Terreiro de Jesus, até, pelo menos, a Igreja do Carmo, uma estranha inversão de devoções se dava, tendo Jorge Amado com um de seus personagens principais: nas igrejas, de São Francisco, de Nossa Senhora dos Pretos e do Carmo, os turistas, que se acotovelavam sem muita reverência pelas imagens, pelo templo em si, pelas missas que mais de uma vez as vi sendo celebradas, falavam alto, tiravam fotos com seus flashes a estralar, zanzavam daqui pra lá, hipnotizados pelo ouro, pelas curvas das esculturas, mas também pelo deslumbre que intoxica qualquer forasteiro a ponto de deixá-lo ao mesmo tempo um alvo fácil para picaretas em geral e de não respeitar o sagrado alheio, o sagrado do nativo, a ponto de não entender o sagrado.
Já na Fundação Casa de Jorge Amado, dedicada à obra do mais famoso escritor baiano, em vez de falatório, desrespeito e uma boba alegria irreverente, as pessoas falavam baixo, contemplavam embevecidas os objetos pessoais do escritor, os fac-similes dos originais de seus romances, liam com reverência ritual as placas que davam informações sobre livros, viagens, sobre o fardão da Academia Brasileira de Letras. As máquinas fotográficas também pipocavam, sem flashes, mas o clima de templo era muito maior do que encontrei nas igrejas quando os turistas estavam nelas.
Talvez isso tenha ocorrido porque tive o desprivilégio de ao menos uma vez, visitar as igrejas na companhia de muitos turistas desses que andam em bandos, passageiros de cruzeiros marítimos, que não diferem a contemplação de uma igreja e um passeio de montanha-russa na Disney. Talvez porque as aglomerações façam de nós, seres humanos, animais agitados, ávidos por exibir nossa sabedoria, nosso tênis de marca, nossas câmeras moderníssimas. Na Fundação dedicada a Jorge Amado havia muito menos gente, nem todos literatos, todos se sentindo de algum modo ligados àquelas personagens, àquelas estórias, àquele cenário; uma ligação especial, um reconhecimento do valor da obra do escritor, uma alegria por ver de perto camisas, canetas, comendas, por saber os bastidores de cada livro. Reconhecimento, reverência e gratidão são elementos essenciais para que algo se torne sagrado.

Eu mesmo, que nunca havia lido um livro do autor, mas que me sentia uma espécie de sobrinho-neto dele, por ter passado uma fração não desprezível da minha vida assistindo a novelas, filmes e minisséries baseadas em sua obra, eu, que logo após aprender a ler, acho mesmo que a falar, já percebia uma certa mitologia que emanava de Capitães de areia, Quincas Berro D'água  e Dona Flor e seus dois maridos, que assistia capítulo a capítulo à novela Tieta, me divertindo e me chocando com sua história muito ousada para um folhetim que passava naquele horário, mas com as devidas inserções cômicas para aliviar a densidade dos temas, eu, que havia recentemente assistido a mais uma versão televisiva de Gabriela, me entreguei reverente e agradecido a tudo que via na Fundação, os prêmios, os "originais", as fotos, os fardões − de Jorge e de sua esposa, Zélia Gattai − das histórias que contextualizavam os livros e davam detalhes sobre seus nascimentos, mas, especialmente, diante de alguns fac-símiles de seus originais, de seus óculos, sua caneta e de sua máquina de escrever. Por quê?
Diante do cubo de vidro que protegia páginas, óculos, caneta e máquina de escrever, quedei-me agradecido, silencioso, a poucos passos da devoção. Emoção semelhante, creio eu, que deva sentir quem visita o endereço de Sherlock Holmes, em Londres, posto que Sherlock, os Buendía e Gabriela, Quincas, Tieta, embora sejam todos personagens de ficção. Conan Doyle, García Márquez e Jorge Amado são desses escritores que fazem personagens de ficção ganharem endereço de verdade.
Acho que a minha reverência − não direi devoção, essa eu tento entregar apenas em momentos ainda mais íntimos e especiais a um ser somente − aos originais, à máquina de escrever, peças sem valor artístico e que apenas por um acaso prosaico foram parar nas mãos de Jorge Amado, venha da capacidade do escritor de criar universos que se infiltraram entre nós como algo que nos espelhe, nos explique, nos divirta. E suas ferramentas para criar pessoas, mundos, universos, estavam diante dos meus olhos.

Eu, que não sou católico há muito tempo, respeito e reverencio as obras de arte que encontrei pelas igrejas baianas − o que será assunto para outro momento, em breve. Eu, que só agora começo a ler os livros de Jorge Amado e descubro que seus romances são muito superiores a qualquer adaptação televisiva ou cinematográfica que tenha visto até hoje, e cujo o desprezo acadêmico talvez nem se justifique, não iria me emocionar com o contato limitado e mediado por cubos de vidro com sua obra e, por que não dizer, com ele mesmo?

domingo, fevereiro 03, 2013

Magistério: profissão ou sacerdócio?


Quando comecei a dar aulas, ou antes, quando decidi ser professor povoei a mente com inúmeros devaneios pedagógicos em ambientes escolares que conhecia bem, desde aqueles tempos ingênuos de quem estuda e anseia pela aprovação no vestibular, pela conclusão de um curso, pela realização de um sonho que não era apenas o de obter acesso a um trampolim social que me alçaria a novos patamares de consumo, desde aqueles dias em que eu me deslocava pelos corredores da escola como aluno e já me imaginava carregando pastas, sacolas e trabalhos dos meus alunos, eu havia decidido amar os estudantes que cruzassem o meu caminho.
Já naquele tempo eu desconfiava que apenas o amor não bastaria para educar ninguém, o amor não é suficiente para lidar com saberes. Mas sem ele a coisa poderia ficar travada, sem sal nem adoçante, chata. Aí, já na faculdade, já mergulhado na rotina de lecionar, como professor remunerado ou voluntário, fui tendo cada vez mais  clareza de que ao lado do amor, quando a meta é ensinar, é preciso conhecer conteúdos e lidar com competências e habilidades, essas duas palavras que tanto confundem os profissionais da pedagogia.
Nas outras profissões, acredito, o amor também pode ajudar muito. Imagino que um médico que ame seus pacientes os tratará com muito mais respeito, um advogado amoroso não verá seus clientes como entradas em balancetes e mesmo um operador de máquina que ame seu ofício produzirá mais e com maior qualidade. No entanto, é possível que haja profissionais sem amor que desempenhem bem suas funções, e em nenhuma área, que eu saiba, o amor consegue substituir a técnica, o conhecimento, o preparo - nem mesmo na educação.
Contudo, o educador que apenas cultue sua disciplina e a julgue mais importante que seus educandos não tem condições de ser um bom profissional. Duvido.que tenha.Arranca-se um dente, fabrica-se um copo, inocenta-se um réu, transplanta-se um coração sem amar o alvo de sua ação; educar exige mais que aplicação.
Educar, de verdade, exige muitas vezes renúncia, principalmente do ponto de vista financeiro. Professor é mal remunerado, isso é uma verdade histórica e praticamente universal. E isso se reflete no seguinte problema: estamos todos tão acostumados a dizer que professor ganha mal, que merecia maior reconhecimento e salário, que não fazemos nada de concreto para que a situação mude − nem os sindicatos se preocupam de fato com a questão, apresentando, ao longo da história, propostas que flutuam entre a irrealidade e a esmola, entre a demagogia e o puro descaramento.
Um fator, acredito eu, que colabora para que as coisas continuem como estão, está no fato de que a profissão de professor é vista mais como sacerdócio do que como um ofício como outro qualquer. Quem assume um sacerdócio o faz por vocação, por chamado, não por questões mundanas como obter um salário digno, um meio de acesso aos bens materiais; esse foi o meu caso. O sacerdote não vive de um salário, mas de doações. Um sacerdote cumpre suas funções com amor, com muito amor, independente de ter o que comer em casa ou não.
Há professores, e não são poucos, que encaram sua profissão como um sacerdócio. Eles dedicam de verdade seus conhecimentos, aptidões, seu tempo e saúde ao ato de ensinar. Muitos deles estão entre os melhores educadores, e mereceriam, sem dúvida, os melhores salários possíveis. Eles amam seus alunos e o que ensinam, e merecem muito mais do que uma trufa no dia 15 de outubro ou férias duas vezes por ano.
Os médicos, muitas vezes, também já foram tratados como sacerdotes. Nem sempre tiveram o prestígio social traduzido em salários atraentes. Alguma coisa aconteceu ao longo da história que fez com que estes profissionais, alguns muito dedicados ao ato de cuidar de pessoas, outros verdadeiros gaviões que tratam pacientes como presas, fossem reconhecidos não apenas com admiração, mas com grana. No caso da medicina, sacerdotes e gaviões gozam do mesmo respeito e muitas vezes recebem salários dignos. A sociedade já não espera dos médicos que sejam amáveis, mas reclama quando não são competentes. Dos professores, espera-se ora nada, ora competência, simpatia, beleza, senso de humor, um bom repertório de piadas, amor, compreensão, sensibilidade e muito mais. Também espera-se que não fique reclamando muito de seus salários, afinal de contas, professor tem duas férias por ano e sempre ganhou mal, muito mal.

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