quarta-feira, agosto 28, 2013

Mais metalinguagem



Tenho feito poemas
Porque a vida assim tem mandado
Escrevo com poucas penas
Nada muito elaborado

Estrofes sem pretensão
Termino tudo em um ato
Não servem pra diversão
Pois tem cada verso chato…

Mas poemas, quando aparecem
Jorram por necessidade
Mesmo com pé quebrado
Mesmo fora de esquadro

A vida sem simetria
Pois também se faz poesia
Com o suor das seis e meia

Com sangue, suor e latrinas

terça-feira, agosto 27, 2013

A classe médi(c)a brasileira


Os abolicionistas corriam para os portos brasileiros receber os navios negreiros com vaias e hostilidades  os escravos? Imagino que não, dentre outros motivos, porque os escravos, os escravos de fato, não passavam de vítimas de um sistema hostil e vergonhoso.
Os ex-escravos iam receber os imigrantes europeus que vinha para o Brasil trabalhar nas lavouras com hostilidades e vaias? Imagino que não, entre outros motivos, porque sabiam que aqueles homens corriam atrás do próprio sustento e, se faltava uma política de acolhimento dos novos homens livres ao mercado de trabalho de uso de mão de obra escrava, a culpa não era dos imigrantes.
Os médicos brasileiros vaiam os médicos cubanos que vieram para atuar em áreas onde ninguém quer ir. Os médicos brasileiros os chamam de escravos, usam de toda sua força e fúria para hostilizar um grupo que não está tomando o trabalho de ninguém e que, se é que há alguma coisa parecida com escravidão nesse caso, os responsáveis são os governantes cubanos, não os médicos que vieram para cá.
A crueldade ganha requintes diabólicos quando observamos nas imagens de um ato de covardia − e não de reivindicação − médicos brancos e vestidos de branco, com brincos e colares e relógios caros, que foram até o local e voltarão aos seus lares e consultórios particulares dirigindo carros caros, alguns de luxo, mesmo, chamando de escravo médicos negros, que não pilotam carros de luxo, que não podem usar joias raras, que não trabalham em consultórios particulares.
O que querem esses médicos furiosos? Não querem "reserva de mercado", pois não pretendem trabalhar nos rincões abandonados pelo governo e por eles mesmos; não querem apenas que os médicos façam o tal "revalida", pois se a questão fosse apenas referente à prova, não iriam xingar colegas de profissão − ou os "doutores" brasileiros, a maior parte deles sem doutorado algum, pensam ser superiores aos médicos cubanos, argentinos, portugueses e espanhóis?
Aqueles médico pensam fazer parte de um seleto grupo meritocrático e que por isso estão acima de qualquer tipo de comparação, desafio e não acreditam que devam prestar algum serviço à população; a população, nesse caso especialmente a doente e desamparada, existe para que eles possam exercer a profissão, ou seja: os doentes devem servir ao médico, e não o contrário. Eles querem escolher os doentes e não querem que os não escolhios sejam tratados por mais ninguém.
A mentalidade desses médicos enfurecidos me lembra não apenas o vídeo que circula pela internet com a professora − e doutora de fato − Marilena Chauí criticando a classe média. A julgar pelas respostas furiosas tanto de membros da classe média quanto dos proletários que gostam de pensar em si mesmos como membros de uma elite pensante e econômica brasileira, penso que ela acertou na mosca. Também não posso deixar de contar um pequeno episódio ocorrido com um colega de trabalho meu, em uma famosa quermesse da Bela Vista. Em uma fila para comprar, sei lá, uma quermesse, tendo seu caminho obstruído por um senhor de meia idade, vestido elegantemente, solicitou várias vezes passagem, sendo todas as vezes ignorado. Já irritado, tomou a frente do distinto cavalheiro, e foi xingado de todos os nomes, inclusive de "malvestido". Uma garotinha macérrima e vestida com espalhafato que acompanhava o velho cavalheiro, disse a frase perfeita para a situação:
− Você sabe com quem está falando? Sabe quem ele é? Ele trabalha na melhor empresa da cidade de São Paulo!
Sem querer generalizar, claro, mas tomando os baderneiros de jaleco que ofenderam seus colegas cubanos, o cavalheiro de nariz empinado e sua coleguinha deslumbrada como referencial, penso que Marilena Chauí só disse o óbvio. E continuo temendo pelas pessoas que, como eu, dependem da saúde pública para se cuidar…


terça-feira, agosto 06, 2013

E o Paulo Coelho, hein?


 

Alguns meses atrás, exumaram o cadáver da polêmica entre Paulo Coelho e  a crítica literária. Entre frases desagradáveis e textos "acadêmicos", como um que saiu na Folha, do sociólogo Fernando Antonio Pinheiro, nada de novo no Caminho de Santiago.

Toda essa balbúrdia literária chegaria a um fim se cada um ficasse em seu lugar. Muita gente esperneia a falta de reconhecimento do talento literário de Paulo Coelho ao mesmo tempo em que empinam seus narizes e afirmam que  a crítica não serve pra nada, é burra, preconceituosa, elitista, redundante e que o mago não precisa dela pra nada. Ora, eu não me preocupo com o reconhecimento de quem não admiro, não respeito e cujo trabalho não me parece sequer útil. De todas essas afirmações que soam democráticas, libertárias e modernas, a única que me faz sentido, que é realmente verdadeira: Paulo Coelho não precisa, nunca precisou da crítica. Justamente por não precisar dela, por vender muito  bem sem apoio cultural ou resenhas simpáticas, não faz sentido que as pessoas se incomodem com a torcida de narizes que os acadêmicos dão. Cada um seu canto, cada coisa em seu lugar. Aliás, Raquel Cozer já divulgou em seu blog texto baseado em pesquisa que afirma: resenhas e matérias nas páginas culturais de revistas e jornais ajudam muito pouco a vender livros.

Não sei se algum crítico sobre a crítica que ignora Paulo Coelho já procurou saber por que o bruxo não faz o mesmo sucesso na academia (não digo na ABL) que faz nos saguões de aeroportos, na internet, nas livrarias, no Irã. Chamar um grupo inteiro de profissionais, intelectuais, estudiosos da literatura, grupo bem heterogêneo que, apesar de relativamente pequeno, abarca diversas linhas de pesquisa e posições ideológicas, de preconceituoso, burro e elitista, pra mim, é uma postura preconceituosa, burra e "popularista". Há algumas razões para Paulo Coelho não fazer repercutir seu estrondoso sucesso nas salas de aula, nos gabinetes. Procurem saber!

Digo aqui uma que percebo de longe e de há muito: os livros de Paulo Coelho "problematizam pouco". O que quero dizer com isso? Que eles, em sua simplicidade, singeleza, em suas parábolas diretas, em suas comparações explícitas, em seu enredo de fácil assimilação, em suas lições de alcance universal, não oferece muito espaço para explorações, análises, interpretações. Estou certo de que esses recursos são intencionais e que o autor busca com eles alcançar um grande número de leitores, muitos deles pouco afeitos com outros tipos de literatura. Não há pecado algum nisso, e se o cara não fosse bom no que faz, não teria o sucesso que alcançou. Agora, esperar que estudiosos da literatura tenham obrigação de reconhecer o talento "indiscutível" de Paulo Coelho é demais. Há entre professores de literatura e críticos quem discorde sobre o talento e a genialidade de Machado de Assis, de Guimarães Rosa, José de Alencar, Drummond, Oswald de Andrade, Rubem Fonseca, Dalton Trevisan, Paulo Leminski, Lima Barreto, Ferreira Gullar, Luis Fernando Veríssimo, Manuel Antônio de Almeida, Clarice Lispector, Murilo Mendes, Lygia Fagundes Telles, isso para ficar apenas entre os brasileiros. Por que Paulo Coelho deveria ser alçado automaticamente do sucesso na livraria para o sucesso acadêmico?

Aí o defensor de Paulo Coelho dirá, com razão, que todos os autores citados acima − eu gosto de alguns, desgosto de outros − têm seus defensores e detratores, enquanto Paulo Coelho só tem detratores. Que estranha unanimidade seria essa que irmana toda a crítica brasileira − a ignorância no assunto me faz desconhecer se a unanimidade entre os críticos é universal − contra o autor de O alquimista? Não creio na unanimidade sobre Paulo Coelho: é possível que haja professores universitários dos cursos de Letras que sejam admiradores de Brida ou do Diário de um mago. Nem por isso, até agora, houve um grande movimento no sentido de analisar sua obra, pelas razões que já dei acima. Enquanto Machado de Assis produz frases famosas, como "Marcela amou-me durante quinze meses e onze contos de réis", para citar uma fala célebre, criativa, irônica, famosa, entre tantas outras que poderíamos usar, Paulo Coelho escreve "Quando você realmente deseja uma coisa, todo universo conspira ao seu favor", que, cá pra nós, não é nenhum exemplo de frase lapidada e sequer deve ser levada a sério fora dos círculos da teologia da prosperidade ou das editorias de autoajuda.

Um outro motivo para não vermos uma fortuna crítica de peso sobre Paulo Coelho é que ele não tem uma obra literária de vulto (pronto, falei). Seus livros são quase sempre histórias para "aquecer o coração do leitor", pano de fundo para que frases de efeito e fórmulas de autoajuda ganhem algum destaque. Olha só: "Não tenha medo do sofrimento, pois nenhum coração jamais sofreu quando foi em busca dos seus sonhos". Não tem muito cabimento dizer que Paulo Coelho faz uso do senso comum de forma "consciente" para justamente "criticar" o senso comum, enquanto conquista um número de maior de leitores e espalha sua mensagem de paz e fraternidade entre os mansos da terra.

Confesso que as frases foram colhidas na internet e que podem muito bem ser apócrifas. Mas vai me dizer que isso faz mesmo alguma diferença? Quem é fã de Paulo Coelho não é porque vê em seus livro alguma semelhança com Shakespeare, Thomas Mann ou Borges: são fãs por causa dos livros que o próprio Paulo Coelho escreveu. E nem cola aquele papo batido de que o cara começa lendo livros do bruxo pra depois ler Dostoiévski: Paulo Coelho amortece o sofrimento com doses de ilusão, o gênio russo nos choca com a miséria da condição humana. Cada um escolhe suas armas para suportar a existência humana, uns repetindo mantras fofinhos, outros tomando consciência da dor universal, para depois lidar com ela. Uns gostam, precisam da surpresa escondida na arte (ler Adorno), outros querem apenas relaxar com a previsibilidade. Cada universo, suas regras, seus antagonistas.

Nem todo sincretismo é legal. Então, aos coelhistas, peço que não cacem chifres em ovo, tampouco cabelo em testa de cavalo: ou não existem, ou os há em tamanha quantidade que denunciá-lo é a mais infrutífera das decisões.

 

 

CARTILHA DO PÓS-CONTEMPORÂNEO EM FASCÍCULOS APRESENTA


A LETRA A
(GRÁTIS: LETRA C E UM ESPETACULAR TRAVA-LÍNGUA):

A CARA DO PAPA NA CAPA DA CARAS

domingo, agosto 04, 2013

Santástico vexame


Não escrevi antes sobre este assunto por três motivos: falta de tempo, não assisti ao jogo com a devia atenção, não queria, no calor do momento, insultar ninguém; quando somos torcedores, temos uma espécie de licença para sermos irracionais, deixamos a paixão nos levar, seja nos louros da vitória, seja na fúria por derrotas humilhantes; tento abrir mão dessa licença.
Torcedor também não costuma ser grato nas derrotas, especialmente as sem muito sentido, as decorrentes de flagrante e notória incompetência. Todos os créditos se perdem quando jogadores, técnicos e dirigentes pisam feio na bola ao não enxergarem o óbvio.
Tento ser grato à atual diretoria do Santos. Entre 2010 e 2012 tivemos grandes alegrias, intercaladas por alguma preguiça, fruto da sensação de dever cumprido para o ano. Esse deitar-se esplendidamente sobre as conquistas do primeiro semestre nos impediu de concorrer a títulos importantes no segundo semestre; faz tempo que não disputamos com seriedade o campeonato brasileiro, embora tenhamos três títulos estaduais − cada vez menos prestigiados, embora não seja justo simplesmente desprezá-los − uma Copa do Brasil, uma Libertadores e mais aquela mais ou menos Recopa Sul-americana. Não foi pouco.
Em compensação, por razões que ainda não estão exatamente esclarecidas, fomos protagonistas de um vexame em escala internacional, ao não vermos a cor da bola na disputa pelo mundial de clubes de 2011. Os jogadores que lá estiveram defendendo o distintivo do mais nobre dos clubes brasileiros (fala de torcedor, mas de torcedor consciente!) não agiram como se  estivessem defendendo não apenas o próprio prestígio profissional, mas a honra de um clube conhecido internacionalmente. Montados sobre uma fama construída em campeonatos nem tão disputados assim, desmontaram-se diante do adversário em uma atitude esquizofrênica, entre o deslumbramento e a admiração idólatra pelo adversário.
Não gosto de ser ingrato, coisa que nós torcedores sabemos fazer tão bem. Mas ao longo desse ano, a mesma diretoria que soube segurar e contratar jogadores competentes ou craques da estatura de Neymar, fez péssimos negócios, desprestigiou um técnico indiscutivelmente vencedor − mas que já não estava a fim de muita coisa, reconheçamos − perderam jogadores competentes, grana e títulos. Confiando na mística de que o glorioso alvinegro praiano já contava com pelo menos três gerações de meninos da Vila, a chamada Vila Famosa, digo a Vila mais famosa do mundo, marcaram, para lucrar alguma coisa, um amistoso entre um time feito de improviso, com garotos ainda inexperientes, contra o time mais respeitado e temido da Terra, time este reforçado com um craque da estatura de Neymar, motivado e feliz pela sua estreia.
Dessa vez, livres da ilusão coletiva que nos acometeu em 2011, nenhum torcedor do Santos era capaz de acreditar em uma vitória, em um empate sem gols que fosse. Os mais otimistas, como eu, imaginavam que haveria um jogo de compadres, cujo resultado ficasse em torno de 3 gols de diferença, e isso contando com a nobreza do adversário. Os mais pessimistas pensavam em cinco, seis gols. Levamos oito sem ver a cor da bola.
Não sou um estudioso do futebol, entendo pouco ou nada de tática, gosto de ver jogadas bonitas, sei diferenciar um volante de um zagueiro e torço de coração pelo Santos e pelo Brasil, em primeiro lugar, mas raramente assisto a alguma disputa, de qualquer esporte que seja, sem tomar partido. Até eu, torcedor leigo que sou, sabia que um jogo entre o time que mais acumulou títulos nos últimos anos e outro cuja maior parte dos jogadores e a comissão técnica sequer goza de experiência regional − técnico e boa parte dos jogadores ainda não disputou partidas contra Corinthians e Palmeiras, por exemplo − não poderia dar em coisa boa para nós. Quanto dinheiro poderia pagar a humilhação, o vexame, as piadas feitas até pela seleção do Taiti, que sequer é formada por profissionais?
Laor e demais dirigentes do Santos, continuo grato pelas vitórias do passado recente. Mas gostaria de crer que absurdos como estes não se repetirão mais. Gostaria de crer que vocês não confirmarão a tradição histórica de que o tempo de validade dos cartolas brasileiros é extremamente curto, que o competente de hoje é o burro de amanhã, que o moderado e honesto de agora será guloso e corrupto depois. Não endossaria a opinião de que esta equipe deve sair imediatamente da diretoria do Santos, mesmo porque minha opinião de distante torcedor não vale pra muita coisa, mas tenho duvido que o coração de vocês esteja sangrando mais que o meu.

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