segunda-feira, dezembro 23, 2013

Paz na terra


Desamarrotava o rosto e a roupa, depois do sono pesado e dolorido que nasceu no meio da tarde e varou a treva da noite, e pensava no que fazer para o jantar. Um ovo mexido com o resto de queijo que endurecia na geladeira, depois misturar com arroz e katchup, mais três rodelas de tomate. Ela adorava ovo mexido.
Enquanto esquentava o óleo, distraiu-se com os primeiros fogos da noite e queimou a ponta do dedo, que logo levou à boca, depois à torneira, para que a água o resfriasse. Ligou a pequena televisão sobre a geladeira, com imagem tão amarrotada quanto a da dona, e viu um comercial que a convidava para a Missa do Galo. Pedro era menos traidor que Judas? Um virou Santo Padre, o outro enforcou-se e teve o ventre derramado sobre as penhas. Não era esse o destino que todo mundo merecia?
Sentada no sofá da sala, ligou o rádio. Teve pena dos locutores que precisavam trabalhar naquela noite. Ninguém estava escutando rádio, a não ser os outros solitários que também precisavam trabalhar, porteiros, enfermeiras, seguranças, meia dúzia de taxistas, os caras da Light, algum bandido ou policial. Os noias não escutam rádio, os roubam e trocam na biqueira. E mesmo assim, nessa noite, as pessoas ocupadas traziam a alma surda, agarradas na verdade a qualquer som que as fizesse companhia, mas sem prestar atenção a nada que não fosse a própria dor. Assim como fazem os casais apaixonados, ou que apenas se suportam, tanto faz.
A sobremesa foi um pêssego e um naco de panetone seco da promoção.   Os fogos aumentavam, alguns gritos, garrafas espatifadas no asfalto, música alta por todos os lados. Depois da Missa do Galo vão passar um filme antigo. Debaixo da cama ela tem uma caixa com filmes e séries de seu agrado, pensou em escolher um e apreciar com um bom copo de vinho de São Roque que ela comprou de um ambulante que improvisou uma gôndola na pracinha. Talvez a Missa do Galo não tivesse relação com a noite em que Pedro traiu Jesus, ou faria mais sentido celebrá-la na Semana Santa, perto da Páscoa. Uma pena não ter feito catecismo.
Pensou em depilar as pernas enquanto assistia a algum especial de Natal, bebeu o primeiro copo de vinho, estouraram um rojão próximo ao seu portão. Recebeu uma mensagem no celular desejando feliz Natal e a bênção do anjo Gabriel, mas era engano. Ela não se chamava Paulinho, nem Paulinha e ninguém tinha o número de seu celular.
Foi até a cozinha, encheu o segundo copo de vinho, desligou a televisão que esquecera acesa sobre a geladeira, os fogos aumentando em intensidade e proximidade, sentiu o dedo ardendo, o enfiou debaixo da torneira mais uma vez, pensou em pegar gelo, mas desistiu, achou que já não era assim necessário. Lamentou não ter montado um presépio de verdade. Foi até o quarto, procurou um Novo Testamento que ganhara nos tempos de escola, quis abrir em um Evangelho qualquer, acabou lendo algo confuso sobre dragão e Grande prostituta, fechou o livro assustada. Normal, nos tempos da bíblia havia até bom ladrão. Sentiu a garganta queimar.
Na sala, ao lado da televisão, havia uma árvore de Natal com poucos enfeites e um presépio na base: uma vaca, um bezerro, soldadinhos de plástico atuando como pastores, magos e pais, e uma boneca de plástico enorme fazendo o papel do pequeno messias.
Lembrou do coral que vira um dia antes no shopping. Todos com gorrinhos vermelhos, olhos vidrados e risos pálidos.
Dez e meia, pensou em dormir cedo, mas não podia, era Natal e os fogos não dariam paz a ninguém antes da primeira hora da madrugada. Queria que Pedro, o santo apóstolo, estivesse ali. Lembrou que há muito não rezava. Da casa da vizinha vinham gritos e palmas, era o amigo secreto começando − a vizinha comentara com ela que a troca dos presentes precisava ocorrer antes da meia-noite, quando todos se abraçariam, desgraçadamente alegres, se sentariam ao redor da mesa, fariam uma oração de agradecimento e comeriam até seus olhos incharem, até seus corações pesarem, até três ou quatro caírem bêbados e um pouco mais perto e um infarto ou avc.
Apontaram um rojão para sua janela, mas erraram. Meia-noite ela estava fazendo as unhas, terminou, esperou secar e não tinha mais com oque se ocupar. Muitos gritos na vizinha, algum rancor da infância brotando entre os convidados, contrariando a paz na terra, manchando a boa vontade dos homens, desbotando na terra a glória a Deus nas alturas. Adormeceu no sofá, borrou as unhas.

Pela manhã, quando foi comprar pão, esforçou-se para manter no rosto aquele mesmo sorriso cansado dos demais, desejou feliz natal a quatro ou cinco pessoas, foi ignorada por três. Ao voltar para casa, trancou bem a porta, pegou a faca, cortou um naco do panetone duro e seco da promoção, com a mesma faca cortou e lambuzou de requeijão um pão francês meio queimado e agradeceu a Deus por não ter mais esperança.

segunda-feira, dezembro 16, 2013

Natal

Da presepada ao presépio

Natal é irmão gêmeo da guerra
"Gera empregos, aumenta a produção"
É antitrégua
Corrida vazia, altar da mercadoria
Natal é gula e fartura
Sede evidente de cada vez mais gordura
Queima gasolina em uma pressa sem cura
Natal é festa de máscaras e maquiagem
Protocolos de alegrias com data e hora marcada
Concentra nas ceias pílulas de solidão
Natal é festa pagã
Presépios de feltro e fezes
Adornam toda tristeza
"Num mundo de sonho e magia"

Dentro dos corações de luto
Sobre as almas castigadas
No estábulo fedorento
Na manjedoura abandonada
Entre todos os venenos
Onde abunda ou falta dinheiro
Quem sabe onde anda esse Cristo, o menino
O que ele nos dá, entregue, frágil, desde sempre sozinho
Por que veio até nós, nossos próprios deuses
O que fizemos dele, da própria glória o despimos
De onde vem sua fé em nós, pecadores contínuos?

O que faz desse menino o Cristo
É ver em cada um de nós
O bebê da manjedoura, desprotegido
Nu, com frio e sozinho
Visitado por animais
E pastores esquecidos
Ao lado dos pais, igualmente perdidos

O que faz desse menino o Cristo
É derramar sobre a humanidade

Um amor que a tudo torna um pouco divino.

domingo, dezembro 08, 2013

Mandela


A lição que ninguém aprendeu

Talvez surjam pessoas dizendo que Nelson Mandela (1918-2013) não foi nenhum pacifista, que sob seu comando a África do Sul caiu em uma crise econômica profunda, que seu esforço para superar o apartheid não passou de uma estratégia para atrair investidores e nada mais. Lembrarão de seu passado (a partir de agora, tudo que falarem de Mandela será passado?) de guerrilheiro, falarão de sua amizade "suspeita" com Fidel Castro e outros ditadores.
Mas a verdade é que bem antes de morrer Mandela já virara um ícone, uma unanimidade. Mais provável mesmo é que Mandela seja decididamente uma unanimidade e, como acontece com as unanimidades, muitas vezes mal-interpretado.
O maior legado de Mandela, ao seu país e ao mundo, foi a lição suprema do perdão. Lição difícil, aprendida e acalentada durante 27 anos de prisão, sob trabalhos forçados. O maior crime cometido por Mandela, e por tantos outros daquele país, não foram atos de terrorismo, não foi a corrupção, não foi sequestro seguido de morte, tráfico de drogas ou de influência: foi não aceitar um sistema político que separava o povo entre brancos privilegiados e negros excluídos, foi acreditar na igualdade, foi lutar pelos seus pares.
No Brasil, não é fácil para nós entender o que foi o apartheid, pois por aqui o racismo é velado e cínico. Mesmo assim, a imensa maioria vê Mandela como herói. Muitos lamentaram e lamentarão sua morte, no entanto, poucos seguirão seu ensinamento. Perdão é palavra fora de moda, o que é bem compreensível, pois o excesso de impunidade sufoca as possibilidades para o perdão. Quando criminosos e malfeitores riem da nossa cara, falar em perdão vira afronta. O que as pessoas querem, o tempo todo, nas formas mais violentas e degradantes possíveis, é a vingança.
Mas o perdão não é apenas um ato de nobreza e abnegação. Não é um atestado de santidade ou fraqueza. O perdão pode ser uma estratégia política, pode ser um passo importante para uma sociedade construir um futuro mais próspero, livre de revanchismo. Enquanto Mandela buscou o diálogo com quem o prendeu e humilhou, impediu que o rancor se tornasse política de estado, ainda que tivesse todos os motivos para devolver aos defensores e beneficiários do apartheid ao menos um pouco do sofrimento que essa política repugnante impôs à maioria negra sul-africana.

É pena que atualmente, ao menos no Brasil, perdão seja uma ideia sem sentido, é lamentável que após tantos anos de impunidade, perdão seja quase sinônimo de injustiça, e que justiça se confunda com vingança. Mandela entrará para a história como um homem admirável − até quando, não sabemos − mas a sua maior lição ainda não foi aprendida.

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