segunda-feira, março 24, 2014

A.I. Nº 0

Noite
Embalsamada noite
Um corte
Um norte
Um açoite
A violência
Com que cala
E arrebenta
Tudo que não seja noite
Embalsamada noite
Um trago
Um afago
Uma foice
A que ceifa
E rouba  a seiva
Abortando tudo
Que não tema a noite
Embalsamada noite
O vulto
O luto
O lobo
O que drena
O sangue e a lua
Secando tudo
Que não louve a noite
Embalsamada noite
A estrela
O edema
O poema
Rasgando o dia
Cegando todos
Sobre a morte

A noite.

sábado, março 22, 2014

Contraluz


Amarildo apagou
E fez-se o horror
−silencioso e sorridente−

Claudia apareceu
E o sinistro se deu
−indignação complacente−

Vieram à luz
Holofotes do ódio
De uma alma indigente
E brasileira

Não aquela mestiça
Antropofágica, tropicalista
Mas a alma desgovernada
 Impenitente
Racista

Piras humanas
Archotes feitos de gente
Iluminaram a chaga
Revelaram a treva

De toda a nossa miséria

Abraço a Rivaldo


Rivaldo finaliza
Discreto como um cão
À sombra de um quintal
(Preguiçoso e vadio)
A saga do craque
Seco estrategista

Rivaldo girava
Rivaldo ainda gira
No campo e na vida
Com perna de pinça
Perna pincel de artista
Métrica em desalinho

Rivaldo não rima
Rivaldo ritmiza
Rivaldo uma reta
Grande parabolista
Rei da bicicleta
Exímio pedalista
No seu pouco espaço
(Nobre futebolista)
Falava com pés
O futebol maravilha

segunda-feira, março 17, 2014

Canção do exílio do corpo


Minha terra chora pedras e urina sangue
A dor aqui dói a todo instante
É de osso, pele e carne fraca
Na minha terra, a fome é farta

Cismo à noite, de dia tenho muito sono
Minha terra é sombra de inverno a outono
Cismo à noite, sonolento de dia
Minha pátria é luto e apatia

Minha terra tem fronteiras bem definidas
Dilacero com vizinhos chagas, agonias
Minha terra tem a marca da chibata
Covarde, escarra gritos na malta

Minha terra, quando desperta, grita
Devora os próprios filhos, salga suas feridas
Minha terra, venera a morte e o silêncio
Esnoba a periferida, esparge sangue no centro

Minha terra, sem mim, é ninguém
Comigo, até que também

quarta-feira, março 05, 2014

Dois filmes que doem: Baixio das bestas e Amor


No espaço de uma semana, pelo acaso da programação da TV, somado às opções do Netflix,  assisti a dois filmes pontudos feito verrumas, nenhum deles lançamento: o brasileiro Baixio das bestas e o francês Amor. Dois filmes que, para usar expressão do responsável pelo primeiro, Claudio Assis, foram feitos porque "doeu".
De fato, a experiência distinta que cada uma das obras nos proporciona é de dor: o primeiro, Baixio das bestas, explicita uma dor que vem de fora, do outro, imposta por uma organização social, por uma miséria humana compartilhada a socos, tiros e estupros, que estraçalha qualquer brisa de respeito ao próximo e a si mesmo; já o segundo, Amor, lida com uma dor que vem de dentro, fruto da própria decomposição natural do corpo, que nos segue desde o nascimento, mas acelera-se visivelmente nos últimos anos da velhice.
A impressão que temos é de que os dois filmes lidam com tragédias inevitáveis, que podemos, no máximo, aplacar, na direção do fim inevitável de qualquer pessoa: a solidão, a morte, o sofrimento brutal, a violência que supera qualquer padrão de normalidade. As duas "histórias" − confesso que fico pouco confortável para chamar o que vemos em Baixio de "história"; creio que esteja mais para "fragmentos de um discurso grotesco" − trazem em comum, mais do que a exposição de chagas profundas, um embate sobre a dignidade. Dignidade é algo que cada um de nós luta diariamente para conquistar, para manter, na maior parte das vezes com a ilusão de que ela dependa apenas de nosso esforço, de nosso comportamento, de nossos cuidados pessoais. Infelizmente, dignidade é algo que só existe em relação ao outro, na forma como escolhem nos ver e tratar, baseada em nossos também vagos e subjetivos atributos pessoais, em nossos bens materiais e conceituais ou, como acontece tantas vezes, nos valores e interesses do outro e como nos encaixamos nesses determinados valores.
A esse respeito, percebemos, especialmente em Amor, que dignidade é, no máximo, uma ilusão social, uma quimera, ou, caso exista, um simples fruto do acaso. Já no Baixio, o que nos agride é o exercício tão desmistificador quanto em Amor que nos faz pensar que a dignidade simplesmente não existe e que onde houver qualquer tipo de relação de poder, haverá violência, ou pelo menos o terreno estará mais do que preparado para que a violência exploda.
Baixio das bestas e Amor são dois filmes de alta corrente elétrica, que provocam choques daqueles que queimam a carne, deixam cicatrizes. Por isso sequer recomendo a todos que os assistam, especialmente o primeiro, pois há choques que em vez de ressuscitar, levam a óbito. Já o segundo pode ser visto por quase todo mundo, especialmente pelos que têm medo da morte e da velhice, não necessariamente nessa ordem, mas deve ser evitado por quem viu recentemente algum ente querido perder a batalha contra o tempo − a realidade pode ser ainda mais cruel que a arte. Contudo, Amor dá um novo significado à ideia de "até que a mote os separe", muito mais profundo, verdadeiro e bonito. Ao assisti-lo, lembre-se de que o amor não elimina o desespero. Desespero vomitado em Baixio das bestas sobre a barbárie que nos assola, mas que ao longo de nossa existência preferimos, no máximo, estetizar. Lembre-se de que Claudio Assis é o cineasta da "antiestética", crudelíssimo, e, por isso mesmo, nos mantêm sempre à flor da pele.
A bíblia fala em mortificar a carne para salvar o espírito. Mortificar o espírito, que em geral anda tão dopado pelos absurdos transformados em espetáculo ao nosso redor, pode nos devolver a humanidade.




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